segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Diário de um viciado


O sangue escorria quente pelas minhas narinas
como as lavas de um vulcão
entrando em erupção

Uma cachoeira vermelha lavava as poeiras
do chão de meu quarto
O suor era o retrato do meu medo
lambuzando o rosto,
digo, esta amassada máscara

Insanos calafrios
Pálpebras agitadas
seguiam o compasso doentio da insônia
Minha boca molhada
com a saliva da morte que se avizinha

Um exército de demônios
me conduz a uma dança em um círculo de fogo

O quarto parecia encolher a cada minuto
me encurralando em um canto escuro
Luzes eram descargas elétricas
irrompendo minha pele debilitada
e maltratada por mim mesmo
Todas as posições são inimigas

Deitado
Sentado
Em pé
Meus tímpanos ouviam irritados
 as alegrias das ruas
Canções idiotas expressas
pelos embriagados andarilhos noturnos
Latas chutadas
como uma bola de futebol

São três,
quatro,
cinco horas da madrugada
E eu chapado
aguardando uma nova alvorada

Nada mais me importa
do que manter-me vivo
Os arrependimentos dão sinais de seta
tentando ultrapassar
os momentos descontraídos do vício

Há um espelho onde me enxergo,
Os restos que ainda me sobraram
O reflexo de um saco de lixo humano
fedendo a destruição

Deve existir algo mais nobre
 que essa luta desigual
Vou seguir em busca da minha real existência
nesse estranho mundo

Hoje consegui me manter vivo
Amanhã não sei...

9 comentários:

Lady Viana disse...

Boa noite, amigo Evandro...

Que poema forte e profundo,gostei. A vida é mesmo assim, terrível, ela nos emburra em misericórdia, nos joga para lá e para cá, temos mesmo é que aprender na marra, muitas vezes com o coração aberto em chagas, dando a cara à tapa, mas ainda bem que ela nos empurra, porque assim aprendemos e nos ternamos mais fortes.

Um forte abraço, beijo doce e ótima semana.

samedi disse...

Muito obrigado! :)

© Piedade Araújo Sol disse...

viciado de algo é sempre muito complicado, você consegui retratar aqui, esse flagelo.
um poema muito forte.
um beijo
:)

Fê blue bird disse...

Um poema intenso e dramático de sobrevivência.

Muito bom e profundo. Parabéns!

Beijinho

Fábio Murilo disse...

Que relato contundente, expressivo, incrivelmente detalhado. Como um filme de terror. Descrito do fundo do poço. Chocante. Gostei muito! Abraços!

mム尺goん disse...

...e então,
tornou-se início outra vez.


um beijo



Zilani Célia disse...

OI EVANDRO!
TUDO JÁ FOI DITO POR QUEM TE LEU, ENTRETANTO ACRESCENTO, LUTA DE MUITOS, INGLÓRIA, QUASE SEMPRE.
UM TEXTO TRISTE PORQUE RELATA VERDADES QUE SABEMOS EXISTIREM EMBORA NÃO AS VEJAMOS EM NOSSO DIA A DIA E QUE TROUXESTE À TONA COM TUA CONTUNDÊNCIA NA ESCRITA.
PARABÉNS.
ABRÇS
-
http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

Salete disse...

Descreve bem a vida aflitiva de quem vive o pesadelo dos vícios, qualquer um...
Muito bom mesmo o poema.

Beijo.

Evanir disse...

Amigo .
Sentido sua doce presença ..
Venho saber de si uma vez que também estou ausente .
Deus esteja contigo.
Abraços..
Evanir.