sábado, 1 de agosto de 2015

Vejo...


Vejo jazigos itinerantes

em alucinações lancinantes

 

Vejo cavalos alados

sobrevoando meus pecados

 

Vejo as nuvens

em minhas ébrias escaladas

rumo a psicodélicos cumes

 

Vejo tijolos loucos

assentando torres sem flores

 

Vejo bravios mares de asfalto

em embarcações lépidas

navegando intrépidas

formas de assalto

 

Vejo a cidade em chamas de tiroteio

queimando a alma tênue da brisa que,

em desnorteio,

chora a putrefação do corpo juvenil

esvaindo-se cedo do orbe

sem saber a que motivo veio!

 

Vejo migalhas pisoteadas pelos cães,

enroscando em suas pútridas patas

Pútridas como a desesperança latente

abrindo uma funda cratera

na imunda esfera

de sonhos descrente

 

Vejo orgias religiosas

sacudindo poeiras

e enterrando na lama do fanatismo

a alma sem realismo

dos fracos tímpanos ávidos

de rajadas alvissareiras

 

Vejo animais de terno

sem graça ou picadeiro

desfilando em um circo de inferno

lambuzando-se por inteiro

de ouro sem suadouro

colhido de janeiro a janeiro

 

Vejo polêmicas languidescentes

geradas em anêmicas nascentes

 

Vejo amigos capturados

por um nó súbito e forte

e cuidadosamente enlaçados

aos braços gélidos da morte

 

E agora,

vejo-me no espelho

Escravo molestado por um fardo forçado

Olhar envolto em pranto vermelho

Mascarado em ébrio tablado

montado no limiar rotineiro

de cada lúgubre aurora...