terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Palácio de areia



Ah jovens velhacos em gravatas de seda e camisas de linho

Desfilando imponentes em corredores cálidos

Torcendo o nariz ao adentrar o ninho

Da escória uniformizada de risos pálidos

 

Faces de santos em almas de demônios

Balançando seus pescoços por ouro banhados

Pobres criaturas de opacos neurônios

Vertendo o sangue azul em seus organismos iluminados

 

Bocas destilando a burrice em criativos fedores

Mãos batendo no peito exaltando a classe alcançada

Vivendo em um orbe alienado, ó derrotados vencedores

Idiotas inspirando ecléticas piadas

 

Orgasmos atingidos em carros luxuosos e boates radiantes

Asfixiados por seus ares em torpes futilidades

Embriagados pela soberba de seus luxos enxameantes

Agraciados pela venenosa benção de suas burlescas irmandades

 

O poeta observa inerte, psicografando em seus versos

A morte cerebral concedida à suas veias ignóbeis e apodrecidas

Covardes aprisionados em grades de palácios perversos

Bandidos insossos, roubando a essência de suas próprias vidas

domingo, 1 de novembro de 2015

Despedida


Pálpebras fechadas em sublime delicadeza
Desprezando os acordes indesejáveis da rua
Hibernando em devaneio de rara pureza
Abortando a sanguinária realidade nua e crua

Viajando em nuvens serenas e alvacentas
Irrompendo em melodia limpa e imaculada
Observa do alto as vis ruas cinzentas
E o rosto desolador da fé estuprada

O vento guiando seu calmo roteiro
As lembranças pairando em sua alma
Uma passagem ornada de adorável cheiro
E uma sensação de inusitada calma

Chegando ao insólito destino
Passou as mãos sobre o peito furado
E indefeso como um tênue menino
Derramou o pranto lento e desesperado

Tentou voltar, mas não conseguiu
O espírito sucumbiu à ação perdida
Calado, só pôde ver a turba que seguiu
Seu corpo se despedindo da mundana vida!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Nefasto labirinto


Sol em brilho ínfimo

Olhar vazio em magia

Alma circundada
em infinito inverno

Decadente corpo

Rasteja melancolicamente
ao nada

Febril gota de pranto

O último respirar da vida
clamou ao longínquo
mar de alegrias

Um braço de água
para irrigar
a esmaecida e degradada
floresta de concreto

Ela tenta fugir
do nefasto labirinto humano

Ainda resta a dança no fogo
das imaculadas pistas
dos castelos de sonhos
de criança

Que a aurora
tarde a surgir...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O ofício


Vocábulos e surreais fantasias
Pingam azuis em virgem rascunho
Mesclando tristezas e alegrias
À inquietude sórdida de meu punho

Sílabas de sangue, consoantes pacíficas
Céu de brigadeiro, luares radiantes
Trincheiras mentais, guerras específicas
Frases fulgurantes em linhas saltitantes

O grito sufocado, a tragédia exaltada
Desertos solitários em vertentes de dor
O âmago inóspito da beleza desbravada
A alquimia intrigante do tenro amor

A noite, fico a observar um precipício
Flertando e interrogando a tênue vida
Tentando entender a maldição desse ofício
O qual me deixa inerte, sem solidária acolhida

sábado, 1 de agosto de 2015

Vejo...


Vejo jazigos itinerantes

em alucinações lancinantes

 

Vejo cavalos alados

sobrevoando meus pecados

 

Vejo as nuvens

em minhas ébrias escaladas

rumo a psicodélicos cumes

 

Vejo tijolos loucos

assentando torres sem flores

 

Vejo bravios mares de asfalto

em embarcações lépidas

navegando intrépidas

formas de assalto

 

Vejo a cidade em chamas de tiroteio

queimando a alma tênue da brisa que,

em desnorteio,

chora a putrefação do corpo juvenil

esvaindo-se cedo do orbe

sem saber a que motivo veio!

 

Vejo migalhas pisoteadas pelos cães,

enroscando em suas pútridas patas

Pútridas como a desesperança latente

abrindo uma funda cratera

na imunda esfera

de sonhos descrente

 

Vejo orgias religiosas

sacudindo poeiras

e enterrando na lama do fanatismo

a alma sem realismo

dos fracos tímpanos ávidos

de rajadas alvissareiras

 

Vejo animais de terno

sem graça ou picadeiro

desfilando em um circo de inferno

lambuzando-se por inteiro

de ouro sem suadouro

colhido de janeiro a janeiro

 

Vejo polêmicas languidescentes

geradas em anêmicas nascentes

 

Vejo amigos capturados

por um nó súbito e forte

e cuidadosamente enlaçados

aos braços gélidos da morte

 

E agora,

vejo-me no espelho

Escravo molestado por um fardo forçado

Olhar envolto em pranto vermelho

Mascarado em ébrio tablado

montado no limiar rotineiro

de cada lúgubre aurora...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Relógio


Deus mecânico e de desejos intocáveis
Nos ordenando em um reino sinistro e insano
Recordando em nós vitórias e derrotas memoráveis
No vai e vem apressado de cada ano

O tempo é o seu Pai lhe espiando do horizonte
Rindo de todo homem que lhe obedece
Seguro que não há meios de afronte
Ao destino traçado da vida, que a cada dia padece

Nos pressiona a cada segundo
Nos adoece a cada minuto
Nos envelhece a cada hora em que muda o mundo
Nos aproxima da morte, a cada anoitecer de luto

Mas a vingança, ó Deus sem caridade
Será a viagem final de nossas almas, dourado companheiro
A minha atingirá a plenitude majestosa da eternidade
E a sua os confins pútridos de um lixeiro!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Enigmáticas feridas...




Com orgulho, divulgo aos amigos que fui o vencedor de um dos mais tradicionais concursos de poesia de Sorocaba-SP, o "Depoesia", em sua 14ª edição, organizado pelo Instituto Darcy Ribeiro junto com a Jatobá Comunicação e Cultura. O concurso contou com 31 poetas de Alumínio, Araçoiaba da Serra, Iperó, Itu, Mairinque, Porto Feliz, Salto de Pirapora, Sorocaba e Votorantim.

Abaixo segue a poesia intitulada "Enigmáticas feridas...", com a qual venci o concurso (Poesia já postada neste blog em 01.10.2012):



Enigmáticas feridas...


Alcova fria em solidão provocativa
A mente inerte, pairando em redoma aflitiva
A face bruxuleante e suada pelo escarro da lâmpada rutilante
O amor bandido pela última vez correspondido
O fígado dilacerado pelo excesso de orgias desregradas
A idade pouca, reflete louca, à porta do crepúsculo da vida
As raras alegrias findadas em passados de espasmos embriagados
Trêmulas mãos procurando um sólido corrimão
para a alma equilibrar a tristeza
Cigarros chorando a falta do beijo incendiário
Um livro de Drummond empoeirado no canto da estante
A televisão dialogando com as pútridas baratas
Gotas paranóicas da pia branca ferindo o copo abandonado
O olhar vagando em campos de espinhos
molhados por um orvalho sombrio
A brisa trazendo o silêncio inocente
e momentâneo das ruas
Janelas fechadas impedindo a entrada da noite enluarada
Vozes delirantes brotando das paredes sufocantes
Um instinto mórbido pairando no cérebro confuso
O revólver sacado no desespero consolador
Dois tiros no peito e o último respiro sofredor
O Cristo de braços abertos derrama uma lágrima
na cama cálida pelo sangue
que a encobre de paz pálida
E os amigos como eu,
egoístas e caprichosos,
esperavam ao menos uma carta
com letras tremidas,
como se isso explicasse,
suas enigmáticas feridas...

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O ator


O ator é o alicerce
dos castelos de sonhos
moldados
com os tijolos da imaginação
colorindo o branco e preto
da mesmice
com a aquarela infinita
pela camaleoa transpiração
onde as íntimas vontades reprimidas
são realizadas e abençoadas
pelos holofotes reluzentes
do palco mágico
de nossas vidas

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Ode a Baudelaire



Voava lépido e intrépido tal imaculado albatroz
Sulcando as alegrias do sol e tristezas da lua
Destilando o sonho de um curioso em obsessão atroz
Por suas mulheres malditas em viagem ébria e nua

Engolia o vinho dos amantes em um crepúsculo matinal
O relógio inimigo lhe trouxe a alquimia da dor
A varanda e o cachimbo se entrelaçaram
na confissão de sua aurora espiritual
De estar solitário neste abismo incolor

O salão de sua alma foi acometido 
por um canto de outono
A música derradeira soou como veneno para seus ouvidos
A paisagem avistada foi uma gravura fantástica
que lhe mostrou o trono
Da benção ao rebelde concedido

Agora parte, guiado pelos faróis mágicos da eternidade
Vampiro ávido por fonte de sangue consoante e vogal
Velejando na harmonia da tarde 
sem as nódoas da insanidade
Acariciado pela poesia, a voz erótica de sua bela nau 

domingo, 1 de março de 2015

Estou farto


Estou farto de enterrar meus amigos
Estou farto de ligações inoportunas
e sair sofrendo
para as tristes despedidas noturnas
transformando meus ombros
em ineficientes abrigos

Estou farto de consolar pais, viúvas e irmãos
com aquelas velhas palavras ensaiadas
Fazer o sinal da cruz ao tocar as geladas mãos
dos meus companheiros em longas jornadas

Estou farto em observar flores de amargo odor
enfeitando salas brancas
com suas coloridas cores
conduzindo ao castelo da lembrança
mais um dos novos moradores
Ao fundo o pranto da revolta
fazendo a escolta com a melodia da dor

Estou farto das carreatas
que não representam vitória
e no último adeus interrompendo
parte de minha história
Histórias vividas em conversas de bares
e loucas viagens
terminando em frios jazigos

Como estou farto
de enterrar meus queridos amigos

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fera que sangra


O poeta afronta a mórbida monotonia
Mostra sua fronte angustiada
em vigilância perturbadora
À turba pútrida em inteligência,
ele se levanta e a desafia
Irrompendo a nociva calmaria
com a romaria de sua verve usurpadora

Ecoa pelo vento sua santa maldição
Sulca pelas nuvens um louvor fantasioso
Toca as estrelas com seu febril coração
E do céu banha a terra com um rito auspicioso

Anjo demoníaco,
ultrapassa as autovias do universo
Enxerga com a vidência desregrada
de um olhar incandescente
Derrama um pranto ora vil, ora jubiloso,
em cântico disperso
Solitário soldado cindido
pelas batalhas da caótica mente

Fala com as mãos trêmulas
em performáticos gestos
Clama uma piedosa atenção
aos pensamentos ofertados
Tenta persuadir os que teimam em não ouvir
seus sonhadores manifestos
Rasgando a torpe futilidade
de seus tímpanos embriagados

Errante atemporal, ainda brilha
com suas iluminações puras
Luta com a escuridão suprema
que insiste na vida perdurar
Germinando palavras e colhendo frases
em campos de utópicas aventuras
Fera que sangra,
mas não esmorece,
em seu desafiador caminhar

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ode ao Toni




Atravessas as alvas nuvens em teu dourado possante
Navegas pelas ondas infindáveis de nossa saudade
Trilhas tua mística jornada por estrelas rutilantes
Olhais por nós do ápice doce da eternidade
Nos acaricia pela brisa tenra da aurora
Inaudito seja no eflúvio de tua amada Rosa
Ouves nosso riso e sentes que não foste embora

Medo descartes, tua lembrança é viva e maravilhosa
Emoções desfrutamos em longas e insanas andanças
Zoeiras e tristezas, tua raça és sublime legado
Afugentes a escuridão e tragas a nós a paz imaculada das crianças
Dádiva será um dia estar novamente ao teu lado
Recolhes agora Pai, ao âmago de tua jubilosa glória
     Irradias a todos com a peculiar luz de tua linda e breve história