sábado, 1 de março de 2014

Navalha afiada da paranóia



A insônia sentou sorrateiramente ao meu lado às 4 da madrugada

e lambeu meu pescoço

com a navalha afiada da paranóia

 

Meu olhar foi cortejado

pela insana visão do orbe despedaçado

 

Na sala,

vultos sombrios dançavam em intermitentes compassos

 

A televisão testemunhava a tudo,

solitária com suadas faixas psicodélicas e verticais

 

O fumo do cachimbo foi baforado

em um limbo entediado

 

O tempo foi levado por um austero pássaro de fogo

puxando-me pela alma

e guiando-me até as cortinas da janela noturna

 

A rua foi avistada e abrilhantada

pelos passos dos errantes enluarados

 

A maconha hilariante desvirginou nuvens imaculadas

 

Uma lata de lixo foi estuprada

por um cão esfomeado de dignidade

 

Vacas de meia calça vermelha pastavam

em fazendas de asfalto

 

Tiros de canudo e revólver atingiram

a aorta de réus do submundo

 

Senhoras com seus livros sagrados e cabelos amarrados

clamavam que um arco-íris adentrasse a tortuosa passagem

e que Moisés a protegessem

com um cajado de cinematográfica miragem

 

Automóveis beijavam a face da morte

e riam de seus habitantes

mediocremente estirados em reações imóveis

 

Sacerdotes descansavam devidamente alimentados

pela carne ignorante e melindrada

dos fiéis sedentos pela prometida

e auspiciosa estrada dourada

 

Crianças padeciam em berços de papelão úmido e pútrido

 

A lua derramou uma lágrima nova e crescente,

cheia de tristeza minguante

a iluminar o solo sangrento e aterrorizante

 

Tudo estava escuro,

o demônio espiava sobre o imaginário muro

rasgando os anjos com sua lança ardente

e os afastando com uma roleta russa latente

 

Tudo é igual, mudam os personagens, mantêm-se os roteiros

Cidades cultivadas em prolíferos bueiros

 

A aurora sentou sorrateiramente ao meu lado às 7 da manhã

e lambeu meu pescoço

com a navalha afiada da escória

 

O tempo foi levado por um austero pássaro de fogo

puxando-me pela alma

e guiando-me até as cortinas da janela diurna

 

Ruínas abrilhantadas pelo Sol em suas alouradas rajadas

 

Amores esquecidos em gélidos sentimentos espavoridos

 

Vento assassinado pelo sufocante calor germinado

 

A orgia efêmera dos automóveis nas ruas

 

O radiante trabalhador trilhando estradas conhecidas

prostituindo-se em troca

de sobrevivência envelhecida

 

Caos tupiniquim brindado pelo copo sujo

do barbudo arlequim

 

Carrego em meus pervertidos neurônios

uma fantasmagórica miríade

de devaneios e indagações

 

Não deixarei nada,

apenas um testamento inadimplente

de esperanças

 

E eu querendo ser um pincel

para borrar a tela esmaecida da vida

como uma mágica ilustração de Blake

e colorir de imortal encanto

a mais negra e perversa ferida

 

Hoje, o novo amanhecer no horizonte,

que mostra um outrora desejo

de um fabuloso começo

não me traz alegria e sim,

a tristeza rotineira

da minha proximidade

do fim!

18 comentários:

ॐ Shirley ॐ disse...

Verdadeiramente, essas ameaças terríveis nos rondam, agora que estamos no limiar da nova era. Querido amigo Evandro, para que haja evolução, é preciso antes, haver revolução, isto é, primeiro a faxina planetária, depois a Paz.
Gostei!
Beijo!

Fábio Murilo disse...

Excelente construção, minunciosamente caprichada. Lembrou-me Augusto dos Anjos, poeta que muito aprecio. Muito bem feito Evandro, parabéns.

sub helena disse...

"...E eu querendo um pincel
para borrar a tela esmaecida da vida."
Lindo texto, Evandro, parabéns. Acho que todos nós queremos um pincel, para pintar essa nossa tela inacabada e surpreendente chamada vida.

Fê blue bird disse...

Arrebatador, intenso e perturbador este seu poema , esta sua insónia.

beijinho

© Piedade Araújo Sol disse...

também já escrevi sobre a insónia, um poste que considerei muito profundo.

insónia é uma situação por vezes muito complicada.

bom carnaval!

boa semana.

beijo

:)

Louraini Christmann - Lola disse...

Muito interessante.
Fiquei imaginando o autor
poetizando na insônia...
Bom!

Louraini Christmann - Lola disse...

Muito interessante.
Fiquei imaginando o autor
poetizando na insônia...
Bom!

Zilani Célia disse...

OI EVANDRO!
UM PERSONAGEM, QUE APÓS UMA NOITE INSONE E APAVORANTE, ENCONTRA UM NOVO AMANHECER EMBORA MELANCOLICAMENTE SE VEJA NUM FIM QUE NÃO HÁ, POIS A ALMA É ETERNA E TUDO ACABARÁ, QUANDO FINALMENTE, CONSEGUIR DORMIR...
BELÍSSIMA INSPIRAÇÃO.
ABÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu amigo

Quantas nos encontramos nessa encruzilhada, entre o estar e não estar...entre o sonho e o pesadelo.
Um poema que todas as palavras que eu diga não chegam para comentar.
Parabéns por esta tela pintada de azul acinzentado.

Um beijinho
Sonhadora

Bruna Morgan disse...

A insônia parece que gosta de dar tapas na cara e nos mostrar que o mundo é um lugar desprezível.

Renato Hemesath disse...

É realmente singular cada linha que você escreve. Enquanto leio, às vezes levo tento para tentar dar significado algumas expressões e eu acho que isso é uma experiência bastante diferente e ao mesmo tempo interessante: você saber que existe um sentido ali, e que além dele não ser óbvio, você não o apreende de imediato. Por fim, fico mesmo pensando que as coisas só são comuns quando a gente aceita que elas só podem ser isso.

Um grande abraço!

Janaina Cruz disse...

És um pincel de lindas poesias, mesmo que elas te mordam ou lambam as 4:00 ou 3:00 horas da manhã, és um mestre maior!

Janaina Cruz disse...

Nem imagina a gratidão que sinto, quando lê as minhas poesias maluquinhas e tão reais...

Inspiro-me bastante em teu estilo, adoro os teus poemas...

Rodrigo Moura disse...

A cada verso surge uma reflexão
sobre a profusão de realidades
que nos circundam; o que nos é
distante mas que possui impacto
direto sobre nossa própria realidade
através do questionamento, da análise,
sobre a vida como um todo.
Inspiradíssimo, parabéns!

OBS: precisamos marcar uma reunião
com os poetas Cdb, Douglas e Viana
para colocar o papo em dia, hein!

Um forte abraço!

O tempo das maçãs disse...

Parece insônia, mas com o dia claro vemos que é a nossa realidade, aliás, a nossa triste realidade.

Gosto muito dos seus poemas, Evandro.

Boa semana.Beijinho.

Antônio LaCarne disse...

evandro, teus poemas são sempre registros de maestria.

Evanir disse...

Hoje Dia Do Blogueiro..
Venho te deixar meu abraço
carinho e agradecimento
por caminhar comigo .
Que durante muitos anos ainda possamos
caminhar juntos levando paz e amor.
Beijos no coração .
Evanir.

Franciéle Romero Machado disse...

Intenso o poema, desde o seu início até o seu fim! E a insônia ousa trazer paranoias, ou seja toda essas imagens perturbadoras.São ideias acerca de um mundo tão sem sentido. Cada detalhe construído no poema cria uma atmosfera aterrorizante e ao mesmo tempo neste estado de insônia não se tem a certeza se é mesmo verdade tudo o que se vê e sente, ou apenas um devaneio no passar das horas.Ao fim do poema depois de sair de todos aqueles cenários depara-se também com esse novo amanhecer, ainda assim vê-se triste e próximo ao fim...

Ótimo poema!
Abraços! Boa Tarde Poeta :D