sábado, 1 de fevereiro de 2014

O adeus



A velha caneta enfim descansou

Seu tubo enfartou e a tinta esfriou

A ponta derramou um ínfimo pranto e se fechou

Às folhas que criava vida, nunca mais rabiscou

 

Ficava de canto na decrépita estante

Outrora sábia e anilada companheira

De minhas mãos recordava o corriqueiro instante

Quando lhe possuía com minha alma por inteira

 

A rotina nos separou, prateada rainha das madrugadas

A amargura do cotidiano me envolveu de covardia

Um lapso escuro enregelou minhas memórias enluaradas

E secou nossas rotas pelos mares da poesia

 

Impotente, hoje não consigo lhe encarar

Estou inserido nesse humilhante e insano mundo

Nem me atrevo a lhe pausadamente acariciar

Estou preso na redoma de meu medo imundo

 

Mais um foi o que consegui me tornar

Lembranças carregarei em meu sofrido peito

Vá em paz, querida amiga! Peço apenas para não me julgar

Já sou torturado toda noite quando na cama deito!