segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Eu, arremedo



Leituras ecléticas repousam nas estantes
Degustadas em auroras e luares
Pelo meu olhar de dilatadas pupilas hipnóticas
Tal qual piratas conquistando mares

Busco afagar infernos e firmamentos
Viajando por entre órbitas herméticas
Irrompendo ao ápice insano dos pensamentos
Febril, tal qual um viciado em alucinações frenéticas

E quando, tento semear uma idéia em meu ementário
Vejo que o solo de minha inspiração é árido e quedo
Recolho sementes de devaneios e enxugo meu pranto diário
Por não conseguir ser um poeta, e sim um arremedo

sábado, 1 de novembro de 2014

O gato


O gato escala o muro

e do alto zomba do escuro

Mas fica com o rabo duro e arrepiado

quando se sente inseguro ou desafiado


O gato não teme seu destino

enfrenta-o com peraltices dignas de um menino

Sai procurando as orgias da madrugada

e volta pela manhã com a cara toda arranhada


O gato hipnotiza o pássaro do vizinho

e dá o bote certeiro no amarelo anjinho

Fica com a boca cheia de penas

e as lacunas do estômago satisfeitas e amenas


O gato dorme no quintal largado como um moribundo

e quando desperta espreguiça toda a preguiça do mundo

Rebola e se estica pedindo atenção

Assusta todos na casa quando se enfia nos desvãos


O gato com seus olhos cínicos investiga a humanidade

e desvenda os caminhos tortuosos da cidade

Não se importa com as dificuldades e seus tamanhos

Quando se cansa, pára e descansa

à sombra das casas de alguns estranhos


E nesta saga de vagabundo libertino

lambendo o próprio rabo seja noite ou seja dia

prossegue o nosso heróico e charmoso felino


venerando a nobreza dessa “difícil” vida vadia

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dezesseis anos


Flutuávamos nas calçadas sobre nuvens de pedras

Leis e cartilhas eram luzes escuras ofuscadas pelo esplendor

de nossos intrépidos corações     

Rompíamos uma hermética trilha

 atrozes e famintos tão qual uma determinada matilha


Éramos jovens,

nascidos do ventre da impetuosidade

Militares de uma desarmada batalha

travada pelos campos das livres novidades


Desbravávamos ponto a ponto

da abandonada e velha cidade

namorando o dia e casando com a noite

Risos fartos

Cavalheiros semeando história

Bolsos vazios de dinheiro

Bolsos cheios de sonhos

Religiosos do deleite

Sextas e sábados regiam a santa glória


E das belas donzelas

roubávamos beijos mágicos

E das bebidas e alucinógenos

comprávamos destinos trágicos

E agora inerte neste jardim

após rebobinar o roteiro do filme de minha vida

neste momento precedendo o fim

entre um capítulo límpido de acertos

e pútrido de enganos

como sinto saudades


dos meus dezesseis anos!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O culto presente


Meu triste eu,
louvando o culto saudoso
que o destino me concedeu...

A verossímil vida que pela inquietude era resumida
Mergulhos mentais que atravessavam correntes abissais
Avenidas pisoteadas pelas santas e boêmias pegadas
Garrafas hipnóticas com suas bocas eróticas
gozando molhados beijos
Prédios descascando a tinta conservadora da história
Psíquico anzol pescando a insanidade nua
Felino desfilando imponente
pelas madrugadas uivantes
Guerreiro em campos inóspitos de tristeza
Aventureiro exalando o eflúvio da vitória
Raio jovial sulcando a redoma de amores impossíveis
Envolto em bares abençoados
por campanários dionisíacos
onde lágrimas doces caíam dos olhos visionários e incendiários
O tempo escravo era estilhaçado
pela alforria embriagada
em um horizonte rubro e alvissareiro
sem a febre inconsciente do dinheiro
A lua colhia românticas paixões
em seus estrelados colchões
O sol rasgava a esperança em leda e amarela dança
Os elevadores da eternidade estacionavam
em andares de sonhos
realizando escalas calóricas
pelas madrugadas de aventuras
Fadas e querubins afagando-se em floridos jardins
Vidraças eram vidraças
e não potenciais de desgraças

Meu triste eu,
no limiar do drama,
chorando o culto presente
que o destino me concedeu...

Moribundo solitário e ferido
no limbo dos fracassados,
reproduzido em espelho sujo
e estilhaçado
Palhaço sem cores
em um circo de horrores
Ruminando lembranças ao meu redor
onde o filme brilhante
que foi estrelado em meu viver
volta apenas em espasmos,
em centelhas,
massageando minhas trêmulas
e cansadas sobrancelhas

que estão prestes a desaparecer...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Mais um...


Ruminando capins em pastos melancólicos
Aprisionado em focinheiras hierárquicas
Bebendo no cálice dos sacramentos metódicos
Cordeiro desgarrado das criações anárquicas

Olhar parado, fronte amarelada, peito empoeirado
Coberto por um negro véu enlanguescido
Rastejando tal qual mendigo assombrado
Em seu caminho verdugo de mal-nascido

Servo cômodo sem incômodo pela falta de alento
Faz o sinal da cruz agradecendo a estéril chama de luz
Passa dez horas ao dia celebrando o pífio talento
De ser apenas mais um neste orbe que a todos conduz

E ao envelhecer, em prantos, começa a esmorecer
Enxerga pelo espelho d’alma a centelha de sua mocidade
A rotina arquejante que se prestou a obedecer,
Não lhe permitiu nessa única vida, viver de verdade!

terça-feira, 1 de julho de 2014

O atroz frio

 
O atroz frio lacrimeja
Irrompendo entre brumas e vales
E o seu orvalho solfeja
Uma melodia lúgubre de males
 
Males germinando a saudade
Afilada e bordada em cetim
Trazendo de volta a flor da tenra idade
Que eu regava em venturoso jardim
 
Da vidraça de minh'alma, inerte e aparvalhado
Eu clamava que perdurasse este instante
E a momentânea calma ao coração presenteado
Não fosse furtada em despertar lancinante
 
Mas a prece foi estéril, não atendida
E a porta da sala em mais uma manhã escancarada
O atroz frio lacrimejando e vendo minha vida
Pelas pernas da ínfima rotina, sendo levada...

domingo, 1 de junho de 2014

Copa do Mundo



Patriotismo de modismo!

Balançando sem vida nos postes da hipocrisia

Fincado nos alicerces frágeis da descabida esperança

Lambuzado em esburacados asfaltos assassinos

Ferindo a paz anil com sua colorida trilha de poluição

Uivado em cornetas melodiosamente irritantes

 

Queimando com o néctar da embriaguez visceral

As sedentas gargantas dos roucos sacerdotes da futilidade

 

Carregado no pranto vazio da ínfima prioridade

Vertida pelos olhares inertes e sem ambições cabíveis

 

Desregrados seres veneradores do apocalipse mental

Esqueçam o errante e itinerante lamaçal brasileiro

Vamos vibrar com a riqueza do gol do artilheiro

Amém Copa do Mundo!

Venha camuflar as tragédias de nosso repetitivo jornal!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O invejoso



Tragando o negro veneno do desprezo
Mordendo os rubros lábios raivosos
Esbugalhando o hipócrita olhar surpreso
Adubando no cérebro miolos asquerosos
 
Marchando em uma guerra de vaidades
Uivando suas qualidades inglórias
Escalando a montanha das animosidades
Buscando alcançar uma insana vitória
 
Cegueira trêmula e doente
Engolindo as migalhas de consciência
Humano desumano, animalesco emergente
Perturbado desprovido de decência
 
Patinando em um círculo de lamúrias
Zombado pelo ignóbil e vicioso discurso
Aprisionado em seu próprio labirinto de injúrias
Servo inerte, sem vida, sem louvável percurso

terça-feira, 1 de abril de 2014

O triste tabuleiro


Olhar espavorido em utópica esperança

Estômago escravo açoitado pela senhora fome

Pequenas mãos rústicas já não são mais de criança

Coração empedernido e enregelado lhe consome

 

Passos a esmo lhe conduzem sem porvir

O sol lhe traz espasmos breves de alegria

Esfarrapada alma perdida na louca equação de ir e vir

Apenas um ponto em um quadro branco ele se sentia

 

Estaciona seus pesadelos e avista o parque da cidade

Ouve os risos fáceis das famílias felizes

Chora ao imaginar o que fez para ser banido nessa idade

Sem resposta recolhe seus momentos infelizes

 

Segue sem glória o soldado em sua guerra abandonada

Revirando o lixo em busca da dignidade ausente

Enquanto no céu, no conforto da mansão enluarada

Um Senhor mexe muitos deles nesse tabuleiro decadente

sábado, 1 de março de 2014

Navalha afiada da paranóia



A insônia sentou sorrateiramente ao meu lado às 4 da madrugada

e lambeu meu pescoço

com a navalha afiada da paranóia

 

Meu olhar foi cortejado

pela insana visão do orbe despedaçado

 

Na sala,

vultos sombrios dançavam em intermitentes compassos

 

A televisão testemunhava a tudo,

solitária com suadas faixas psicodélicas e verticais

 

O fumo do cachimbo foi baforado

em um limbo entediado

 

O tempo foi levado por um austero pássaro de fogo

puxando-me pela alma

e guiando-me até as cortinas da janela noturna

 

A rua foi avistada e abrilhantada

pelos passos dos errantes enluarados

 

A maconha hilariante desvirginou nuvens imaculadas

 

Uma lata de lixo foi estuprada

por um cão esfomeado de dignidade

 

Vacas de meia calça vermelha pastavam

em fazendas de asfalto

 

Tiros de canudo e revólver atingiram

a aorta de réus do submundo

 

Senhoras com seus livros sagrados e cabelos amarrados

clamavam que um arco-íris adentrasse a tortuosa passagem

e que Moisés a protegessem

com um cajado de cinematográfica miragem

 

Automóveis beijavam a face da morte

e riam de seus habitantes

mediocremente estirados em reações imóveis

 

Sacerdotes descansavam devidamente alimentados

pela carne ignorante e melindrada

dos fiéis sedentos pela prometida

e auspiciosa estrada dourada

 

Crianças padeciam em berços de papelão úmido e pútrido

 

A lua derramou uma lágrima nova e crescente,

cheia de tristeza minguante

a iluminar o solo sangrento e aterrorizante

 

Tudo estava escuro,

o demônio espiava sobre o imaginário muro

rasgando os anjos com sua lança ardente

e os afastando com uma roleta russa latente

 

Tudo é igual, mudam os personagens, mantêm-se os roteiros

Cidades cultivadas em prolíferos bueiros

 

A aurora sentou sorrateiramente ao meu lado às 7 da manhã

e lambeu meu pescoço

com a navalha afiada da escória

 

O tempo foi levado por um austero pássaro de fogo

puxando-me pela alma

e guiando-me até as cortinas da janela diurna

 

Ruínas abrilhantadas pelo Sol em suas alouradas rajadas

 

Amores esquecidos em gélidos sentimentos espavoridos

 

Vento assassinado pelo sufocante calor germinado

 

A orgia efêmera dos automóveis nas ruas

 

O radiante trabalhador trilhando estradas conhecidas

prostituindo-se em troca

de sobrevivência envelhecida

 

Caos tupiniquim brindado pelo copo sujo

do barbudo arlequim

 

Carrego em meus pervertidos neurônios

uma fantasmagórica miríade

de devaneios e indagações

 

Não deixarei nada,

apenas um testamento inadimplente

de esperanças

 

E eu querendo ser um pincel

para borrar a tela esmaecida da vida

como uma mágica ilustração de Blake

e colorir de imortal encanto

a mais negra e perversa ferida

 

Hoje, o novo amanhecer no horizonte,

que mostra um outrora desejo

de um fabuloso começo

não me traz alegria e sim,

a tristeza rotineira

da minha proximidade

do fim!