quarta-feira, 1 de maio de 2013

O caderno


Escrevo com o sangue
do meu povo...

Salpicando
em lágrimas rubras
letras horrendas
e frases cotidianas
desfilando inglórias insanas
pelo caderno surrado
que desesperado,
chora!

Respiro com o odor
do meu povo...

Clamando
um banho ensaboado
com carinho imaculado
à uma chuva
de paz distante
que deveria vir incessante
apagar a sombria chama
do caderno suado,
que desesperado,
chora!

Ouço com o grito
do meu povo...

Despertando
em um penhasco urbano,
mouco,
e sem alerta
que esfarela a vida
tal brinquedo
velada em um culto quedo
no minuto de silêncio novo
do caderno violentado,
que desesperado,
chora!

Ardo com o choro
do meu povo...


Andando
pelos devaneios embriagado
e buscando
um bálsamo enluarado
abrilhantado
por estrelas reluzentes
emanando
pelos horizontes
um riso
cada vez mais distante
do caderno envelhecido,
que enfraquecido,
chora!

Chora, meu velho caderno...
Chora, meu alvo amigo...
Chora o nosso egoísta inferno
que derramamos em seu fiel abrigo...

E quem chorará
por suas dores?
E quando o pintarão
com vivas cores?

Chora, meu velho caderno...
Chora, meu terno amigo...
Chora o nosso frio inverno
que derramamos
em seu antes ensolarado abrigo...