domingo, 1 de dezembro de 2013

Mais uma bala perdida...


Imponente e atroz selva de calcário

Ornada por árvores de asfalto e rios de carros

Despertada pelo brado do decrépito campanário

Violentando os tímpanos de seus espécimes bizarros



Jovem estudante, cabelo aparado, vestimenta social

Carregando nos neurônios uma bolsa de eruditos valores

Parte pela agitada rua esbarrando em animais de cristal

Ouvindo a cada toque os mais pútridos dissabores



E ao tentar atravessar o cruzamento derradeiro,

Sente um cálido estilhaço o enregelando por inteiro,

De joelhos, vai esmorecendo em lágrimas púrpuras,

Já não sente mais as ambições benevolentes e puras



O olhar trêmulo vaga na caça de quem lhe deu esse destino

Inerte, assiste a morte despir seus últimos sonhos de menino

Adormecido, é velado por corvos curiosos à luz negra do meio-dia

Enquanto sua mãe prepara o macarrão que ele tanto pedia

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Musa...



Desfila lépida pelas passarelas do céu anilado

Riso fácil ornado de doçura bendita

Abraça a lua e lhe deixa um hipnótico legado

O de lhe abençoar em sua trilha infinita

 

Desce a terra e esparge sua tenra loucura

Lírios e amarantos se mesclam ao revigorado vento

Varre a descrença da minha vida antes impura

Cubra-me com seus beijos e finde meu lamento

 

Leva-me ao castelo dos eróticos devaneios adormecidos

Ama-me com a melodia ímpar de seu sussurrar

Finca a lança da paixão em meu peito outrora aturdido

Prenda meu coração ao seu para que juntos possam pulsar!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Platônico


Ir até o inferno

e beijar a boca do perigo

Saborear o batom rubro

do prazer adormecido

Abraçar as pétalas de rosas

e ancorar em um jardim

de sensual abrigo

Buscar um brilho suave

no luar desconhecido

Entrelaçar pernas e braços

em gemidos docemente selvagens

Levantar dos sonhos insanos

e deixar cair uma lágrima

de rara felicidade

Espelho,

ó Deus dos derrotados,

porque me torturas

com a falta de coragem?



domingo, 1 de setembro de 2013

Burguesia vadia


Juventude desvairada



Germinada pelas ruas da cidade



Em miríade de futilidades enraizada



Regada à diária e ínfima ociosidade





Avarentos e desprezíveis olhares



Medindo a turba da face aos calcanhares



Rugindo preconceito aos oprimidos peregrinos



Sendo desta selva pérfida seus mais trevosos felinos





Imagens em luxuosas grifes esculpidas



Bolsos em questões de segundos



com suas carteiras despidas



Até a fome é tratada com modismo idolatrado



Em dois bocados



o dispendioso sanduíche americano é exterminado





Educação rasgada em negra estupidez



Sanidade esquecida em prantos de viuvez



Amizade bordada em coloridos pontos materiais



E aos erros a infinda imunidade



concedida pelos papais





Juventude desvairada



Por nojentas futilidades alucinada



Conduz esta pátria com sua ânsia pútrida de existir



Rumo à derrota anunciada nesta falta de porvir

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O compasso e a página


Ele tornou-se um compasso

e a vida uma página

A ponta do compasso fincada no centro

da negra página com odor de morte

A cada risco,

um risco da paranóia abreviava sua história

As linhas percorridas tornaram-se

sangrentas e espinhosas batalhas

A ponta girando determinada

em ângulos trágicos rabiscando o abismo

No final da página,

o conforto enfim atingido

A ponta quebrou-se

em várias partes de desilusão

Os desenhos moldados pelo compasso

serão esquecidos e talvez até perdoados

Pela página rasgada,

órfã e úmida pelos estilhaços das lágrimas derramadas...







OBS: Poesia escrita após receber a notícia do suicídio de um amigo...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Mais uma vítima...


O dia amanhece em um doloroso vazio

Sonhos soterrados em um terreno baldio

Uma brisa vermelha perambulando sem rumo

Uma pequena lágrima do céu cai suavemente

Ilustrando mais uma obra de arte de alguns delinqüentes

Lá está uma adolescente morta no chão...

Ela era rica ou escória?

Isso pouco importa

Terá seu ínfimo momento de glória

Nos moldes toscos dessa nação torta

Só as flores agradecem, pois serão utilizadas

As roupas do armário se preocupam, pois não mais serão vestidas

O celular se calou, pois não mais será despertado

E os pais ficaram loucos, pois agora estão mortos mesmo com vida!







OBS: Obra escrita após ler a barbaridade ocorrida no Paraná em 25.06.2013.

sábado, 1 de junho de 2013

Sinal vermelho



Míope em olhar e esperança

Camisa surrada, esmaecida

Pés inchados, não de criança

Criança esqueceu de ser nessa vida



As estrelas não o iluminam

O sol não o aquece

A fome e a sede o guiam

O preconceito o envelhece



Saco de balas nas mãos

Sopro de venda no farol fechado

Na oferta, uma onda enevoada de nãos

Na sua face, um mar desditoso velejado



Ao entardecer, recolhe o sonho de futuro

No bolso da bermuda, só mora o imenso furo

Trêmulo, volta para casa sem dinheiro

Em prantos, espera pela surra do padrasto farinheiro

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O caderno


Escrevo com o sangue
do meu povo...

Salpicando
em lágrimas rubras
letras horrendas
e frases cotidianas
desfilando inglórias insanas
pelo caderno surrado
que desesperado,
chora!

Respiro com o odor
do meu povo...

Clamando
um banho ensaboado
com carinho imaculado
à uma chuva
de paz distante
que deveria vir incessante
apagar a sombria chama
do caderno suado,
que desesperado,
chora!

Ouço com o grito
do meu povo...

Despertando
em um penhasco urbano,
mouco,
e sem alerta
que esfarela a vida
tal brinquedo
velada em um culto quedo
no minuto de silêncio novo
do caderno violentado,
que desesperado,
chora!

Ardo com o choro
do meu povo...


Andando
pelos devaneios embriagado
e buscando
um bálsamo enluarado
abrilhantado
por estrelas reluzentes
emanando
pelos horizontes
um riso
cada vez mais distante
do caderno envelhecido,
que enfraquecido,
chora!

Chora, meu velho caderno...
Chora, meu alvo amigo...
Chora o nosso egoísta inferno
que derramamos em seu fiel abrigo...

E quem chorará
por suas dores?
E quando o pintarão
com vivas cores?

Chora, meu velho caderno...
Chora, meu terno amigo...
Chora o nosso frio inverno
que derramamos
em seu antes ensolarado abrigo...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O banco da praça


O banco da praça

Cansado e envelhecido

Abriga a gorda traça

E o raquítico mendigo esmaecido



Banco solitário

Melancólico tira uma fotografia

Do rústico povo ordinário

Dissipando inveja e hipocrisia



Banco ensolarado

Pelos raios flamejantes

Ora pelos olhares quebrados

De uma miríade de retirantes



Banco molhado

Pelas gotas petulantes

Observa de frente e dos lados

A orgia drogada dos errantes



Banco em atroz abandono

Vertendo tristeza

Clama um límpido dono

Que lhe traga de volta a beleza



Banco que observa

Um desfile de risos e cantos

E mudo conserva

Seus mais íntimos prantos



Banco sem esperança

Onde sentam sem respeito

Testemunha adultos e crianças

Caindo inertes com um tiro no peito



O banco da praça

Violentado lentamente

Enxerga sem cores todas as raças

Furtando seus sonhos diariamente...

sexta-feira, 1 de março de 2013

A fé dissipada...


É a mediocridade que impera...



O aborto mental vai jorrando

os fetos do conhecimento

Simplórios e frívolos seres navegantes

em mares de alienação

buscando uma calmaria mórbida



Regras de um jogo desigual!



O coração ainda pulsa

tentando irromper por uma trilha de vitória

Mas o pranto escorre vermelho,

como a bala que beija toda santa esquina

A ferida está na alma,

uma cicuta astuta envenena nossa pálida lucidez



O cansaço é latente

A face enrugada denota o sentimento

que vivemos em um mundo de anedota



A visão é turva,

nosso outrora uivo hoje é um anêmico miado

O amor é dissipado,

lentamente testemunhamos a falta de legados

A límpida beleza do saber foi estuprada

Ultrajante é render-se a maltrapilha ignorância

que vai fincando no espírito a lança da inércia



Esse cenário nos amedronta...



A guerra é inevitável,

sísmico abalo dos sentidos jocosos!

O chão é cheio de trincheiras de melancolia

decepando os sonhos íntimos do funesto dia a dia

Alcançamos o limiar da destruição

Uma morte a conta gotas!

O sol nasce perplexo

e seu reflexo evidencia a atroz constatação:



O inferno venceu a fé da oração!