segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Enigmáticas feridas...



Alcova fria em solidão provocativa
A mente inerte, pairando em redoma aflitiva
A face bruxuleante e suada pelo escarro da lâmpada rutilante
O amor bandido pela última vez correspondido
O fígado dilacerado pelo excesso de orgias desregradas
A idade pouca, reflete louca, à porta do crepúsculo da vida
As raras alegrias findadas em passados de espasmos embriagados
Trêmulas mãos procurando um sólido corrimão
para a alma equilibrar a tristeza
Cigarros chorando a falta do beijo incendiário
Um livro de Drummond empoeirado no canto da estante
A televisão dialogando com as pútridas baratas
Gotas paranóicas da pia branca ferindo o copo abandonado
O olhar vagando em campos de espinhos
molhados por um orvalho sombrio
A brisa trazendo o silêncio inocente
e momentâneo das ruas
Janelas fechadas impedindo a entrada da noite enluarada
Vozes delirantes brotando das paredes sufocantes
Um instinto mórbido pairando no cérebro confuso
O revólver sacado no desespero consolador
Dois tiros no peito e o último respiro sofredor
O Cristo de braços abertos derrama uma lágrima
na cama cálida pelo sangue
que a encobre de paz pálida
E os amigos como eu,
egoístas e caprichosos,
esperavam ao menos uma carta
com letras tremidas,
como se isso explicasse,
suas enigmáticas feridas...

13 comentários:

Antônio LaCarne disse...

encantadíssimo com o poema, parabéns! :)

Rodrigo Moura disse...

Perfeito, Evandro!
Uma aura de mistério em meio a degradação
humana. Uma passagem trágica como
final de uma vida desregrada, de solidão, de insatisfação.
Belo clima de sombrio estranhamento!
Parabéns!
Um forte abraço.

Janaina Cruz disse...

Salve poeta, não canso de ler a tua poesia, considero-as as mais lindas que já li, cada letra tem uma força que nos impulsiona a fazer também poesias mil.

Abraços

Gianna disse...

Grazie della visita.

Bei versi.

AquilesMarchel disse...

parece uma cena de filme


caetano veloso nos tempos da tropicalia construía suas letras como cenas de um filme, mostrando apenas imagens e com sua poesia voce consegue fazer com que se imagine o individuo sufocado em sangue e angustia, bem longe da minha forma de escrever as escolha das palavras vparece meticulosa

Sandra Botelho disse...

Belissimo...Sem mais a dizer. me comovi ao lê-lo. Bjos achocolatados

Parole disse...

Visualizei todo o cenário da tragédia... a última gota de vida, o que não tem mais volta... Espetacular o poema, querido.

Beijo.

Fred Caju disse...

Forte nos versos como sempre!

PauloSilva disse...

A profundidade das suas palavras deixa-me totalmente desejoso de penetrar nessas magníficas ideias e ver o que mais para lá há! Surpresa, mistério, intensidade. Creio.
Um abraço, e continuação de ótimos escritos!

Franciéle Machado disse...

Essa coisa sombria e pálida em seu poema é algo tão encantador, pois recria uma atmosfera sobre os dias que passam tão rápidos e normais. O quanto as coisas podem ser diferentes e frias, coisas que não entendemos mesmo, são apenas enigmas e muito mistério.
O que posso dizer sobre seu poema é que vale a pena ler e reler novamente, é o tipo de escrita da qual admiro bastante e sempre que possível quero voltar aqui e me aprofundar nesse mundo poético.

Perfeita poesia!Parabéns poeta!

Abraço e uma Boa Noite^^

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

Fui lendo e aos poucos visualizando o trágico cenário. Lembrei-me da poesia romântica escapista, gosto disso, deste olhar à deriva do pessimismo.

Abraços, Fernanda

Zilani Célia disse...

OI EVANDRO!
QUE TEXTO!
TENS O TALENTO DOS GRANDES MESTRES.
ABRÇS

zilanicelia.blogspot.com.br/
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J. disse...

Escrita é mais uma linguagem para o encontro. Desde sempre a linguagem se presta ao encontro.
É simples, humilde até na função. Mas, é substancial.
Creio que eu teria morrido em muitas ocasiões, não fosse o poder que a escrita tem de transmutar o tempo, a distância e envolver os sentimentos entre leitor e autor numa comunicação singular, incrivelmente além das palavras.