segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Enigmáticas feridas...



Alcova fria em solidão provocativa
A mente inerte, pairando em redoma aflitiva
A face bruxuleante e suada pelo escarro da lâmpada rutilante
O amor bandido pela última vez correspondido
O fígado dilacerado pelo excesso de orgias desregradas
A idade pouca, reflete louca, à porta do crepúsculo da vida
As raras alegrias findadas em passados de espasmos embriagados
Trêmulas mãos procurando um sólido corrimão
para a alma equilibrar a tristeza
Cigarros chorando a falta do beijo incendiário
Um livro de Drummond empoeirado no canto da estante
A televisão dialogando com as pútridas baratas
Gotas paranóicas da pia branca ferindo o copo abandonado
O olhar vagando em campos de espinhos
molhados por um orvalho sombrio
A brisa trazendo o silêncio inocente
e momentâneo das ruas
Janelas fechadas impedindo a entrada da noite enluarada
Vozes delirantes brotando das paredes sufocantes
Um instinto mórbido pairando no cérebro confuso
O revólver sacado no desespero consolador
Dois tiros no peito e o último respiro sofredor
O Cristo de braços abertos derrama uma lágrima
na cama cálida pelo sangue
que a encobre de paz pálida
E os amigos como eu,
egoístas e caprichosos,
esperavam ao menos uma carta
com letras tremidas,
como se isso explicasse,
suas enigmáticas feridas...