quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ode a Rimbaud




Rosto angelical desbravador de um hermético destino

Rumando em oceanos boêmios em um barco embriagado

Esboçando demoníacos versos em seu sangue de menino

Iluminado vate, na esfera da genialidade fecundado



Uivando a canção da torre mais alta da insanidade

Destilando a alquimia do verbo em suas cartas videntes

Incendiando os conservadores pilares da humanidade

Deixando as coloridas vogais como mágicas sementes



Viajante solitário em uma hipnótica estadia no inferno

Relembrando as pequenas namoradas em luares africanos

Os corvos tentaram ofuscar sua saga de moderno

Em um lodaçal sombrio regado por invejosos puritanos



Adormecido no vale da imortalidade, superou a morte

Espiando o atual mundo ouvindo ao fundo, aprazíveis cantilenas

Beijando sua alva Ofélia e a cobrindo com um abraço forte

Colhendo do céu a estrela que chorou rosa em sua juventude nas Ardenas

13 comentários:

Jorge Pimenta disse...

Ode Rimbaud

eu sou absolutamente moderna, Rimbaud.
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter consigo manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.
p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?


Ana Salomé: "Odes" - Canto Escuro 2008.

rimbaud é boca, voz e canto. daqui ergo a minha taça, evandro!

abraço!

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Adorei ambos...

Abraço

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

"...também o tempo acaba por adormecer"... - poética ideia! Que consequências alvejariam os dias, ou os fabricavam diferentemente?

Belíssima ode, diria eu... à própria sépia da alma tantas vezes matizada em papel brilhante...

Um abraço assim____

Gianna disse...

Bei versi...

Grazie della visita molto gradita.

Fred Caju disse...

Como diria o Chacal:

Todo poeta é um traficante de armas.

Janaina Cruz disse...

Tua poesia encantadora a ninar a Rimbaud, foi a poesia dele que aprendi a conhecer desde menina,Rimbaud jamais morrerá, ele deixou sementes de admiração em muitos de nós.

Abraços poeta, um ótimo fim de semana pra ti.

Parole disse...

Belo poema, Evandro.

Tania Anjos disse...

Belo poema!

Abraços!

Franciéle Machado disse...

Para falar a verdade não sei muito sobre Rimbaud, mas pelo seu talento acredito que você soube bem expressar sobre a vida deste poeta famoso. Seus versos realistas sempre me encantam, possui uma forma toda especial de escrever.Ótimo!

Abraço grande poeta!

Claudio Poeta disse...

Que lindo! - Abração, meu amigo

AquilesMarchel disse...

Rimbaud, passei anos com um livro dele em casa sem compreender, até o fim de minha adolescencia quando a preguiça intelectual me deixou menos mediocre

não faria ode a nenhum ídolo meu nesse nível de linguagem
é meu limite

Viajante solitário em uma hipnótica estadia no inferno



isso só serve a ele?

universal

Rodrigo Moura disse...

Belo poema, Evandro.
O universo interior de Arthur Rimbaud
tornou-se nítido em teus versos!
Dos conflitos aos delírios,
da crítica social a autocrítica,
todas estas sensações foram revividas.
Parabéns.
Abraços!

aline disse...

rimbaud! como eu gosto...