sexta-feira, 1 de junho de 2012

Negra velha



Rugas delineando a impiedosa velhice

Olhos parados adoecidos pelo áspero vento

Alvos e negros cabelos mesclando a meiguice

Dos longos anos de constante tormento



Pernas definhadas e cambaleantes

Mãos vertidas de sangue pisado

Enobrecida senhora em vestimentas humilhantes

Riso pranteado, desdentado, amarelado



Lenço amarrado à testa suada

Lavadeira enxaguando a frieza do austero doutor

Zombada em verso e prosa pela prole alourada

Pilotando o fogão de lenha em obscuro resplendor



Negra velha, velho destino concebido

Corpo e alma violentados pela chibata que exala

Um pútrido eflúvio em dilúvio ensandecido

Jorrando a morte na pouca vida da abandonada senzala

14 comentários:

PauloSilva disse...

Vim agradecer a paragem no meu blogue. Fico feliz e de sorriso no rosto.

E estas descrições tão sensatas? Personificadas dentro do próprio ser.
Uma ténue linha de ênfase em cada palavra.

Abraço.

Jacqueline disse...

Triste e bem desenhada cena.
Realidade sofrida de uma época sempre lembrada pelas construções antigas ainda em pé, que guardam tantas histórias. Infelizmente, nem todas alegres.
Abraço de poesia! Bom final de semana.

Marly Bastos disse...

Evandro, admiro sua forma de escrever sobre as mazelas sociais de forma tão clara, lúcida, sensível e num paradoxo também de uma maneira crua, sem esconder a verdade nas entrelinhas. Seu poema diz a que veio.
Assim é!
Beijokas doces e um bom fim de semana.

Rodrigo Moura disse...

Evandro,
a nossa realidade se confunde com a
do outro independentemente de época, da classe ou do físico.
Somos seres que experimentam as mesmas experiências
em determinado momento; somos especiais como
uma senhora negra em sua rotina.
És muito observador!
Tiro o chapéu!!!
Abraço grande.

Fred Caju disse...

Ninguém escapa.

Parole disse...

O mundo continua o mesmo, porque as pessoas não mudam, apenas aprimoram-se os métodos para que não deixem marcas visíveis.Seu poema transborda emoção e eu gosto muito...

Beijos e bom domingo.

Fátima disse...

Oi Evandro

De muito sentir teu poema, muito!
Me tocou.

Beijo meu

Jorge Pimenta disse...

são suores, músculos tensos a gotejar mágoas e algum sangue a matéria de que se fazem vidas, vidas cujos horizontes se perderam na estupidez de um escrutínio de olhar vazio, assente na pele e na sua cor.

abraço, caro amigo!

Janaina Cruz disse...

O tempo marca na pele a maquiagem que muitas vezes não combina com a alma da gente e, nem adianta tentar fugir disso, é a coisa mais certa no nosso destino. E há os que tem na alma a marca profunda da maldade humana...

São lindas e fortes as tuas palavras Evandro.

Dolce Vita disse...

Tuas imagens poéticas contrastam a árida realidade da personagem. Muito bom!

Folheto Nanquim disse...

A força dela me inspira. Talvez hoje em dia a fibra esteja distante de todos nós. PArabens pelo poema!

Heron Xavier disse...

Ei Evandro!

Obrigado por sua visita lá no blog e parabéns pelo prêmio conquistado pela poesia "A Meretriz".

Abraço e um ótimo fds!

aline disse...

velhice dói, não?

Pedrasnuas disse...

Obrigada pela visita...gostei imenso do poema!!!Muito burilado!!! Poeta maior!!!Parabéns pela obra prima!

Cumprimentos