domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano velho!

Morteiros fugazes
Lançados freneticamente
por jovens e anciões kamikazes
Das poeirentas calçadas
ou da imponência dos arranha-céus
em seus últimos andares

Ferindo o âmago celeste
Show barato de pirotecnia cipreste
Lágrimas coloridas são espargidas
da metrópole ao agreste

Estrelas atrozmente atropeladas
Pelo cosmos rastejam apagadas
Nuvens são meticulosamente picotadas
Aves assassinadas,
caem zombadas e sem serem veladas

O cão desesperado ecoa seu ganido
Faz um dueto com a criança
que responde com seu vagido
Despertando a inquietude do embriagado destemido

O mesmo embriagado ri, chora, diz que ama e depois mata
Estupra a aborrescente e a larga nua na mata
Um mendigo assiste a tudo,
buscando os restos de grandeza na lata

Carros rasgam as avenidas em manobras lépidas
Desafiam os limites terrestres
em suas curvas intrépidas
Repousam nos postes os corpos quentes
e suas almas tépidas

A bala perdida é encontrada no crânio juvenil
As chaves do reino são entregues antes da hora
ao sorteado trabalhador varonil
A poesia se faz escuramente escrita
em um abismo de caos ceitil

O poeta está impotente,
Vítima de um holocausto febril intransigente
A falta de criatividade o nocauteia
e a utopia lhe abandona mais uma vez
entristecendo-o e amarrando-o em uma rotineira teia
Em prantos sente o odor etílico e esfumaçado
e o desabrochar abençoado
de um janeiro tão desejado!

Inundando o país com suas chuvas
de trágicas esperanças,
criando um novo evangelho:
“Louvaste, ó turba paupérrima,
a primeira madrugada como a transa
de um lascivo casal recém-casado
Brinda em seus devaneios de mel o fel do feliz ano velho”!