sábado, 1 de dezembro de 2012

Ode a um amigo



Aperto no peito,

Boca seca apenas umedecida

pela saliva amarga

do crepúsculo final da vida

 

Pálpebras trêmulas

vertem visões derradeiras

 

À frente,

paisagens jubilosas

outrora ornando quadros de verdes campos

são substituídas por estéril e negra avenida

infinda e solitária peregrinação

ao reino do supremo supracitado

 

De joelhos,

tenta com suas imóveis arcadas

rezar orações improvisadas

 

As mãos querem tocar

a camisola alva

de uma dama imaginária que surge

em erótica leveza incendiária

envolvendo-o em seus seios

carnudos e plácidos

 

Acariciando em sua face febril

e impaciente

Esperando o enlace matrimonial

em um medo presente

de se entregar em noite de Fevereiro luzente

 

Não tenha medo!

 

A senda será transposta à transição final!

As mesquinharias abortadas,

atrasadas prestações,

falsos amigos,

fabris humilhações

Uma floresta é avistada

Corcéis negros, dragões,

gatos, cães,

albatrozes e felinos atrozes

Harmonia perfeita

regendo a celestial seita

 

Anjos com douradas harpas

sobrevoam um límpido oceano

onde negros e brancos banham-se juntos

esfregando o pútrido preconceito

destilado no outrora habitado planeta profano

 

Seu corpo apodrece abaixo do cimento

Sua alma rejuvenesce acima do firmamento

 

A missão foi cumprida,

e a eternidade é o seu legado

Oh! Saudoso dardo jogado

no alvo certeiro

do destino fecundado

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Corvos carniceiros



Diários olhares desprezíveis,

à minha pessoa sempre presenteados

Cobrindo minha áurea de cinzas invisíveis

e deixando meu corpo com membros fatigados

 

Perseguido por corvos carniceiros,

será destino esta insana constatação?

E a amargura e o pranto jorrados nos travesseiros,

não são secados nem com uma boa oração

 

Vivo sem entender o mau agouro que me consome,

não são olhos, cabelos, mulher ou algo surreal

A inveja que me martiriza é de um emprego sem sal

o qual possuo não por luxúria, mas para matar a fome!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Enigmáticas feridas...



Alcova fria em solidão provocativa
A mente inerte, pairando em redoma aflitiva
A face bruxuleante e suada pelo escarro da lâmpada rutilante
O amor bandido pela última vez correspondido
O fígado dilacerado pelo excesso de orgias desregradas
A idade pouca, reflete louca, à porta do crepúsculo da vida
As raras alegrias findadas em passados de espasmos embriagados
Trêmulas mãos procurando um sólido corrimão
para a alma equilibrar a tristeza
Cigarros chorando a falta do beijo incendiário
Um livro de Drummond empoeirado no canto da estante
A televisão dialogando com as pútridas baratas
Gotas paranóicas da pia branca ferindo o copo abandonado
O olhar vagando em campos de espinhos
molhados por um orvalho sombrio
A brisa trazendo o silêncio inocente
e momentâneo das ruas
Janelas fechadas impedindo a entrada da noite enluarada
Vozes delirantes brotando das paredes sufocantes
Um instinto mórbido pairando no cérebro confuso
O revólver sacado no desespero consolador
Dois tiros no peito e o último respiro sofredor
O Cristo de braços abertos derrama uma lágrima
na cama cálida pelo sangue
que a encobre de paz pálida
E os amigos como eu,
egoístas e caprichosos,
esperavam ao menos uma carta
com letras tremidas,
como se isso explicasse,
suas enigmáticas feridas...

sábado, 1 de setembro de 2012

Prato do dia



Corte uma tira

 

de letras

 

Jogue em uma panela

 

de idéias

 

Acenda o fogo

 

das polêmicas

 

Misture com a colher

 

da prudência

 

Tempere com uma pitada

 

de indecência

 

Esfrie com o sopro

 

dos sentimentos

 

Coloque pausadamente nos pratos

 

da imaginação

 

Deixe os talheres cortarem as gorduras

 

da apatia

 

Mastigue com suavidade essa refeição

 

de fantasia

 

Servido no restaurante chamado:

 

“poesia”

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ode a Rimbaud




Rosto angelical desbravador de um hermético destino

Rumando em oceanos boêmios em um barco embriagado

Esboçando demoníacos versos em seu sangue de menino

Iluminado vate, na esfera da genialidade fecundado



Uivando a canção da torre mais alta da insanidade

Destilando a alquimia do verbo em suas cartas videntes

Incendiando os conservadores pilares da humanidade

Deixando as coloridas vogais como mágicas sementes



Viajante solitário em uma hipnótica estadia no inferno

Relembrando as pequenas namoradas em luares africanos

Os corvos tentaram ofuscar sua saga de moderno

Em um lodaçal sombrio regado por invejosos puritanos



Adormecido no vale da imortalidade, superou a morte

Espiando o atual mundo ouvindo ao fundo, aprazíveis cantilenas

Beijando sua alva Ofélia e a cobrindo com um abraço forte

Colhendo do céu a estrela que chorou rosa em sua juventude nas Ardenas

domingo, 1 de julho de 2012

Lodaçal


Vidas aprisionadas em calabouços mentais

Ecléticas desgraças acendendo velas

Enlevos abreviados em uivos joviais

Estampados nos alvos vestidos das mortas donzelas



A escuridão beija as gélidas faces

A brisa assopra taciturnas almas

A alegria chega em poucos disfarces

Ínfima onda em um oceano de traumas



A poesia desapareceu no empoeirado porão da memória

Flores murcharam e rios secaram em um lodaçal perdido

O dinheiro reina no negro sentido da rústica história

A esperança jaz na humanidade de coração ferido



E os passos seguem na trilha do medo

Somos trêmulos observadores do final anunciado

O poeta desistiu com seus versos de degredo

O assassino triunfou com seu sangue declamado!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Negra velha



Rugas delineando a impiedosa velhice

Olhos parados adoecidos pelo áspero vento

Alvos e negros cabelos mesclando a meiguice

Dos longos anos de constante tormento



Pernas definhadas e cambaleantes

Mãos vertidas de sangue pisado

Enobrecida senhora em vestimentas humilhantes

Riso pranteado, desdentado, amarelado



Lenço amarrado à testa suada

Lavadeira enxaguando a frieza do austero doutor

Zombada em verso e prosa pela prole alourada

Pilotando o fogão de lenha em obscuro resplendor



Negra velha, velho destino concebido

Corpo e alma violentados pela chibata que exala

Um pútrido eflúvio em dilúvio ensandecido

Jorrando a morte na pouca vida da abandonada senzala

terça-feira, 1 de maio de 2012

Modernidade decapitada


Fantasmagóricos fantoches vomitam violência barata pela pétrea madrugada

Chutando sonhos dilacerados em calçadas surradas de aflição

Observam a lua mórbida e vigilante atirando raios de escuridão em seus destinos

Caminham pela insanidade grotesca da paranóia catequizada pela modernidade

Lustram a lança atroz de seus eróticos demônios psíquicos

Puxam a descarga da ínfima decência que ainda perdura na face suja da cidade

Voam nas asas lúdicas de negros anjos góticos germinadores de mortes

Escalam paredes de sangue pisado fincando a eternidade de seus atos

Cravando no peito dos simples a complicada escalada

De viver um pranto contínuo em um leito de esperança decapitada

domingo, 1 de abril de 2012

Filhos da guerra

Mísseis ecoam rubros em faixas e territórios
Rabiscando diariamente o outrora céu de brigadeiro
Vertendo uma terrível miríade de velórios
Esmagando paupérrimas famílias por inteiro

Derrubam homens como uma brincadeira de dominó
Um a um se escorando no chão esmaecido por desgraças
Prosseguindo em uma peregrinação sem dó
A um deserto sombrio habitado por todas as raças

Oh! Natureza, tu que a seus filhos deu a dádiva da vida
Embalando-os em majestosas santidades
Atesta a incessante atitude suicida
Louvada em uma estadia de gélidas felicidades

Guerras de tanto tempo, é até desprezada a história
Pelos “deuses” dos altares, templos e palácios dourados
Recomendando uma grande medalha no peito para honrar a memória
De suas “crianças”, ornadas pelos buracos dos sonhos roubados

quinta-feira, 1 de março de 2012

Masmorra fabril

É uma lameira que me desnorteia
em uma teia presa a uma aleivosa ladeira

Engalfinhado nessa masmorra fabril
Enfermo por um inconformismo febril
Observado pelo júri de uma psicopata turba ceitil
Meus risos estão sepultados em um cemitério doentio

Um ruído sísmico de engrenagens rítmicas
martelam minhas bigornas de pele e ossos

O céu é nublado, o arco-íris é velado
no subconsciente castrado de erótica esperança

Farrapos fardados rastejam
suas armas de brinquedo
pelas trincheiras oleadas e amarguradas
para satisfazer um poder de arremedo

Não vejo jardins ou ruas, nem sinto um ar bucólico
Nem avisto um boteco encardido
para encostar no balcão feito Bukowski
ou planejar um porre pútrido e melancólico

Garimpo raras pepitas de alegria
nesta serra pelada açoitada
pela falta de liberdade de cada dia

Estou assustado em anêmica floresta
de espécimes pensantes,
fugindo de leões famintos
que desfilam garras ignorantes

Ouço diálogos em mal cheirosas bocas ocas
Insanas serenatas inaptas de poética melodia

O telefone é um flerte do demônio
hipnotizando as últimas veias calmas
do esquartejado neurônio

Assassino recém-nascidas folhas de papel friamente
e as enterro impacientemente
em uma lata de lixo azul céu

Falo sozinho ao olhar para o espelho de minha alma
As teclas do lento computador
me banham de momentânea calma
Minha barba esconde o outrora rosto de anjo
Peço para que a brisa traga de volta meus leves devaneios

E clamo aos malditos que me afaguem
com seus versos bandidos
em um assalto que consiga me roubar
desse entediante labirinto
sendo transposto por uma senda selvagem
e abandonando a hoje triste miragem
de ser apenas um poeta lacrimejante de fim de semana...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Céu


Céu de brigadeiro, paraíso enigmático
Infinito e anilado bálsamo almejado
Pilar de paradoxos apelos temáticos
Silêncio ora aterrorizante, ruído ora abençoado

Costurado por cordões de algodão
Colorido por relâmpagos de fogo
Alento do errante em derradeira oração
Defronte à negra cortina que fecha a janela do jogo

Degraus ornados por “corrimões miraculosos”
Morada imaculada descrita nos pergaminhos
Semente germinada pelos pais nos campos esperançosos
Da trilha “correta” dos decentes caminhos

Céu amado em estridentes e doentios louvores
Salvador da turba agraciada pelo medo
Triste, chora com sangue e destila horrores
Punindo-os por seus bárbaros atos de arremedo

Céu de brigadeiro, será verdadeiro?
Ou uma ilusão? Ou um desvario?
No fim, dar-lhe-ei um crédito, minh’alma por inteiro
E a fé que nunca tive nesse mundo sombrio...






domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano velho!

Morteiros fugazes
Lançados freneticamente
por jovens e anciões kamikazes
Das poeirentas calçadas
ou da imponência dos arranha-céus
em seus últimos andares

Ferindo o âmago celeste
Show barato de pirotecnia cipreste
Lágrimas coloridas são espargidas
da metrópole ao agreste

Estrelas atrozmente atropeladas
Pelo cosmos rastejam apagadas
Nuvens são meticulosamente picotadas
Aves assassinadas,
caem zombadas e sem serem veladas

O cão desesperado ecoa seu ganido
Faz um dueto com a criança
que responde com seu vagido
Despertando a inquietude do embriagado destemido

O mesmo embriagado ri, chora, diz que ama e depois mata
Estupra a aborrescente e a larga nua na mata
Um mendigo assiste a tudo,
buscando os restos de grandeza na lata

Carros rasgam as avenidas em manobras lépidas
Desafiam os limites terrestres
em suas curvas intrépidas
Repousam nos postes os corpos quentes
e suas almas tépidas

A bala perdida é encontrada no crânio juvenil
As chaves do reino são entregues antes da hora
ao sorteado trabalhador varonil
A poesia se faz escuramente escrita
em um abismo de caos ceitil

O poeta está impotente,
Vítima de um holocausto febril intransigente
A falta de criatividade o nocauteia
e a utopia lhe abandona mais uma vez
entristecendo-o e amarrando-o em uma rotineira teia
Em prantos sente o odor etílico e esfumaçado
e o desabrochar abençoado
de um janeiro tão desejado!

Inundando o país com suas chuvas
de trágicas esperanças,
criando um novo evangelho:
“Louvaste, ó turba paupérrima,
a primeira madrugada como a transa
de um lascivo casal recém-casado
Brinda em seus devaneios de mel o fel do feliz ano velho”!