quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O bardo



Atravessei cadernos rabiscados
Desafiando o relógio do meu tempo enferrujado
Visionário aprisionado em redoma cotidiana
Ecoando gritos de liberdade sem censura puritana
Partilhando a lua com ensolaradas madrugadas
Protegendo-me da aurora com espelhos de ressacas despedaçadas
Dialogando com anjos e demônios à paisana
Confundindo em meus neurônios os dias da semana
Cruzando inóspitas e hipnóticas fronteiras
Combatendo meu próprio ego em mentais trincheiras
Subindo degraus imaginários de bizarros campanários
Glorificando sermões de poetas rebuscados
Comendo métricas apimentadas
Bebendo tintos versos brancos
Vomitando utopias em floridos jardins e paupérrimas pias
Agonizando em febris paredes fabris
Psicografando tomar uma garrafa de whisky na tumba de
Jim Morrison em Paris
Tremendo o pulso a cada austero impulso
Luzindo revoluções em tormentas de palavrões
Filmando um cenário gélido e mediocremente sanguinário
Dramaturgo dirigindo roteiros ensaiados em ciprestes celeiros
Plantando cósmicas sementes em áridos campos carentes
Solitário andarilho sem público, nem o próprio filho
Por fora, rochedo que ri maltratando
Por dentro, vidraça que chora soluçando
Caótico envolto em fátuos lampejos de tênue lucidez
Ajoelhado em culto aos deuses da santa embriaguez
Beijando de língua essa crua e nua realidade ambígua
Abrindo uma porta infinda de insanidades bem-vindas
Arrancando suavemente o lacre das latas com líquidos indecentes
Fincando uma lança pontiaguda na sombria ignorância muda
Caveira perdida em mausoléu de feridas
Moribundo em exílio, buscando um iridescente idílio
Rei e plebeu, esse sou eu...
Esse é o meu destino...
Ser um bardo!
Este é o fardo!