sábado, 15 de janeiro de 2011

Bandos



Verdes britadeiras ruidosas
Rasgam o corpo tênue do velho asfalto
Tomando seu lascado coração de assalto
E velando-o sem prantos, sem rosas!

Britadeiras empunhadas por escravos urbanos
Seguras pelas palmas ásperas e definhadas
Úmidas com suor amargo jorrado até as calçadas
Limpas pelos sujos e esmaecidos panos

Escravos ardendo em fogos dilatados
Duelando contra a angústia da saliva ferida
Clamando uma pausa aos corpos fatigados
E um copo cheio com a água mais arrefecida

Ao meio dia, debaixo do viaduto, retiram sua comida
Mastigando e engolindo seco ao ouvir a buzina zombeteira
Olhando no fundo da marmita o reflexo de sua dignidade carcomida
Arroz, feijão, tristeza, açoite e poeira

Ao findar o dia, largam as britadeiras e colocam seus trapos nefandos
Partem com suas mochilas as costas, como se fossem bandos
E realmente são bandos, descartáveis, invisíveis, sem esplendores
Nesse país sem oportunidades, preconceituoso e de pútridos valores