domingo, 4 de dezembro de 2011

A caminho da luz

Ruas simetricamente silenciosas
Solitárias, repousam suas carcaças esburacadas
A brisa afaga o céu com um odor de rosas
Ornando a iluminada sala com o pranto da madrugada

Passos tênues marchando para a despedida
Vertendo valsas tristes em solo sombrio
Tocando a testa gélida da findada vida
Que colhe a paz em etéreo plantio

À tarde, ao batismo do sol flamejante
É lacrada definitivamente em sua física moradia
Deixando a saudosa lembrança doravante
A cada manhã de esperança que se irradia

Tudo consumado, a carne levemente descansa
E a alma voa em asas de pássaro jubiloso
A missão é cumprida e é levada na maré mansa
Dos azuis oceanos, aos braços do criador misterioso

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Vergéis da primavera

A música maviosa entoada por tua voz pura
É mágica centelha a deleitar encantos
Beleza exteriorizada em valsa de candura
Afugentando os negros e funestos prantos

Tudo ao redor se rende ao inigualável momento
As estrelas rutilantes beijam o luar
O eflúvio almiscarado do amor é trazido pelo vento
E as ondas calmas, repousam nos braços do mar

Como criança, ajoelho-me a ti, musa luzente
Quero tocar-te para certificar-me que não és quimera
Afaga o espírito e o coração deste pobre carente
E leva-me entrelaçado aos teus braços pelos vergéis da primavera

sábado, 1 de outubro de 2011

Insanidade!



Insanidade!
Insanidade!

Insanidade cozinhando no fogo alto da cidade
Fogo exalando de peitos abertos por um terremoto de morte
Anjos infantis sem auréola e à mercê da indigna sorte
Fogo de mil faces fúteis vaidosas
Concretos afugentando rosas
Solitários servos do tempo modelador de artérias entupidas
Arranha céus cuspindo fogo e arranhando o céu
de outroras nuvens alvacentas
Efêmeros espasmos de felicidade

Na freada brusca do semáforo mental,
balas saltitantes nas mãos dos esfomeados retirantes
Ondas lancinantes em asfaltos de oceanos lacrimejantes

Insanidade!
Insanidade!

Pessoas cruzando...
Cruzando nas calçadas empesteadas de crias não alfabetizadas
Moribundos desnudos e imundos
Automóveis rasgando obstáculos humanos
Vento frio em calorosos submundos nefandos

Marias aditivadas de gasolina prostituída
chupando a alma enfeitiçada e destruída
de porcos castrados de auto-estima verossimilmente poluída

Risos raros
Altruísmos caros

Pastores olhando para o céu
e jorrando a hipocrisia santa ao léu
Ternos modernos seqüestram inocentes subalternos

Vem Senhor!!!
Vem Senhor!!!
Vem Senhor!!!

Soltam o brado feroz,
Laçam a amarra que prende o povo
para que não voem como um albatroz
Libertam os fiéis da aberta alcatraz?
Clamam uma utópica e órfã paz?

Blindam de discursos baratos os soldados insensatos

Insanidade!
Insanidade!

Penumbra no futuro
Intransponível muro

Correria!
Insanidade!
Correria!
Insanidade!

Rastejando pelas sarjetas diárias
Observando as medievais odisséias
de sobrevivência incendiária

Esticando a máscara de palhaço ofertada
E os neurônios ramificados em floresta mental devastada

E a prece de calmaria solicitada
é escuramente e insanamente refutada
na lança que dança no coração em prantos do devaneio
reproduzido no espelho estilhaçado da alma cansada

Um rádio imaginário toca nos tímpanos surdos
e o despertar já não mostra-se mais belo
ao observar o triste sol
nesses contemporâneos amanheceres de absurdos

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O bardo



Atravessei cadernos rabiscados
Desafiando o relógio do meu tempo enferrujado
Visionário aprisionado em redoma cotidiana
Ecoando gritos de liberdade sem censura puritana
Partilhando a lua com ensolaradas madrugadas
Protegendo-me da aurora com espelhos de ressacas despedaçadas
Dialogando com anjos e demônios à paisana
Confundindo em meus neurônios os dias da semana
Cruzando inóspitas e hipnóticas fronteiras
Combatendo meu próprio ego em mentais trincheiras
Subindo degraus imaginários de bizarros campanários
Glorificando sermões de poetas rebuscados
Comendo métricas apimentadas
Bebendo tintos versos brancos
Vomitando utopias em floridos jardins e paupérrimas pias
Agonizando em febris paredes fabris
Psicografando tomar uma garrafa de whisky na tumba de
Jim Morrison em Paris
Tremendo o pulso a cada austero impulso
Luzindo revoluções em tormentas de palavrões
Filmando um cenário gélido e mediocremente sanguinário
Dramaturgo dirigindo roteiros ensaiados em ciprestes celeiros
Plantando cósmicas sementes em áridos campos carentes
Solitário andarilho sem público, nem o próprio filho
Por fora, rochedo que ri maltratando
Por dentro, vidraça que chora soluçando
Caótico envolto em fátuos lampejos de tênue lucidez
Ajoelhado em culto aos deuses da santa embriaguez
Beijando de língua essa crua e nua realidade ambígua
Abrindo uma porta infinda de insanidades bem-vindas
Arrancando suavemente o lacre das latas com líquidos indecentes
Fincando uma lança pontiaguda na sombria ignorância muda
Caveira perdida em mausoléu de feridas
Moribundo em exílio, buscando um iridescente idílio
Rei e plebeu, esse sou eu...
Esse é o meu destino...
Ser um bardo!
Este é o fardo!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A lua



Surge enigmática no fastígio do céu estrelado
De início tímida, bela e altiva dama
Tecendo em linhos dourados seu véu engalanado
Vestindo a turba terrestre, paradoxo em alegria e drama

Seu olhar largo em claridade acolhedora
Rasga em linhas insólitas o planeta em suas léguas
Escondendo uma angústia taciturna e sofredora
Ao testemunhar queda, as barbáries sem tréguas

Flutua levemente sobre mares, montanhas e ruas
Conjugando o verbo amoroso dos poetas solitários
Romântica sonhadora em ainda colher canduras
Nos jardins de asfalto ornados por lírios sanguinários

Ainda continua seu trajeto, nem o pranto a esmorece
Finda a madrugada e recolhe-se em nuvens de travesseiro
Descansa sua alma em louvor a mais um dia que amanhece
Para que este a presenteie com um despertar alvissareiro


quinta-feira, 23 de junho de 2011

A meretriz...



Com orgulho, divulgo aos amigos que fui o vencedor de um dos mais tradicionais concursos de poesia de Sorocaba-SP, o "Depoesia", em sua 12ª edição, organizado pelo Instituto Darcy Ribeiro no Bar Aurora Boreal.
O concurso contou com 42 poetas de Sorocaba, Votorantim, Salto, Mairinque, Itararé e São Roque.
Abaixo segue a poesia intitulada "A meretriz...", com a qual venci o concurso:



A meretriz...

A meretriz galgava sua Augusta beleza
Arrulhando pela brisa de inverno quente seus desejos proibidos
Maquiando suas rugas e desfilando pelas ruas
Altaneira, lambuzando sua face de inocência pervertida
Colorindo com um batom rosa choque seus lábios partidos

Desfilando em micro vestido de moda ultrapassada
A epopéia que era ornada pelos uivos da madrugada
Desferidos por ébrios lobos famintos de carne mijada
Que em bolsos furados e suados
Multiplicam os caros reais em baratos furtos
Para cortejar a dama que em chamas aguarda um bem-feitor
Para uma refeição rápida de falso amor sem pudor

Príncipe e princesa do lado “B” da grande cidade
Abraçam-se e insanamente dopados
Viajam em esquinas de fumaças e batimentos cardíacos acelerados
Derrubando a cada andar uma lata de lixo cheia de triste dramaturgia
Irrompendo pelas escadarias pútridas de um palácio de quinta categoria
Tropeçando em baratas graúdas e teias de aranha
Devorando-se em um ninho poeirento de vadias paixões
Onde formigas errantes furtavam restos mortais
De porcos humanos ocidentais

Após a esfregação carnal
Bebem no bico um conhaque quente e vencido
Fumam um maço de cigarros Continental
E depois de deixar vinte contos sobre a mesa
O “príncipe” volta para o bar do rato
E a “princesa” descabelada, agredida e literalmente “fodida”
Volta à sarjeta descalça levando nas mãos o par de vermelhos sapatos
E no coração a honra cada vez mais ferida.

terça-feira, 15 de março de 2011

Ode a juventude


Partia livremente pelas ruas
Braços guiados pelo sussurro dos ventos
No céu, as flamejantes estrelas nuas
Ornavam de desejos meus pensamentos

Camisa negra e jeans desbotado
Uniforme da boêmia madrugada
Moldava o corpo açoitado
Pela vil e diária jornada

A chuva gentil molhava minha fronte
Eu, impetuoso aspirante a eterna aventura
Deleitava-me com um novo horizonte
Avistado em herméticos jogos de loucura

Hoje, a lembrança é um vulto, um degredo
Quanto me faz falta a eclética inquietude!
A vida racional me deixa irracional e com medo
De perder o fogo selvagem de minha fantástica juventude

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Serrana tragédia insana

Rio inóspito de jubilosas esperanças
Escombro solitário ornado de corações pranteados
Ouve os intermitentes sussurros das maltrapilhas crianças
E a dor sangrenta dos adultos moralmente esquartejados

Vê o rastejar de almas esmaecidas e pisoteadas
Pelos passos sujos e obscuros da impunidade
Clamando ao céu uma pausa de suas bárbaras trovoadas
E ao sol um sorriso duradouro iluminando os restos da cidade

Vê farrapos de ossos perdidos sem palpáveis horizontes
Emoldurados em exposição escura da rústica vida
Velando suas memórias em fotos reproduzidas nas frontes
Estilhaçados fantoches dançando na terra carcomida

Rio de desprovido povo digerindo o alimento da morte
Servido frio pelo atroz sopro do temido vendaval
De joelhos, evoca a seu Deus um pouco de sorte
Enquanto os abençoados requebram seu desprezo no carnaval...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Bandos



Verdes britadeiras ruidosas
Rasgam o corpo tênue do velho asfalto
Tomando seu lascado coração de assalto
E velando-o sem prantos, sem rosas!

Britadeiras empunhadas por escravos urbanos
Seguras pelas palmas ásperas e definhadas
Úmidas com suor amargo jorrado até as calçadas
Limpas pelos sujos e esmaecidos panos

Escravos ardendo em fogos dilatados
Duelando contra a angústia da saliva ferida
Clamando uma pausa aos corpos fatigados
E um copo cheio com a água mais arrefecida

Ao meio dia, debaixo do viaduto, retiram sua comida
Mastigando e engolindo seco ao ouvir a buzina zombeteira
Olhando no fundo da marmita o reflexo de sua dignidade carcomida
Arroz, feijão, tristeza, açoite e poeira

Ao findar o dia, largam as britadeiras e colocam seus trapos nefandos
Partem com suas mochilas as costas, como se fossem bandos
E realmente são bandos, descartáveis, invisíveis, sem esplendores
Nesse país sem oportunidades, preconceituoso e de pútridos valores