sábado, 4 de setembro de 2010

O homem e suas maiores tentações...

O homem e suas maiores tentações...


Ordenar e destruir...

Alterar o ciclo da criação...

Jogar o caos e com sangue diluir


Modernizar a todo custo

Postular a eternidade sendo esculpido em um medíocre busto

Verter sua insanidade peculiar

Açoitar a terra, a água e o ar


Deleitar-se de seu vil opúsculo

Planejar mórbidas obsessões a cada crepúsculo

Sugar as criaturas infantes aos seus poluídos rios

e contaminá-las pelas fezes de seus desvarios


Aonde chegaremos?

O que nos restou desta festa secular?

Qual de nossas gerações habitará um respirável lar?


Um ilusório teatro nos consome

Marionetes circenses sustentadas pela fome

Falsos profetas celebrando cultos de arremedo

Tênues almas em forma de brinquedo


Santa devastação

Regendo a sinfônica orquestra da putrefação


A cidade esconde lacunas sombrias

Espectros de fogo afagam nosso cruel pesadelo

Nos tabuleiros de asfalto rolam os dados

Clamam as seis faces o fim dos destinos viciados


O homem e suas maiores tentações...


Criar seu próprio reino imaginário...

Trono fincado em um barraco sanguinário

Seita urbana doutrinada pela benção da carnificina

Reis coroados em luxuosas grades regadas à cocaína

Crianças de outrora hoje são adultos sem glória


Florestas devastadas

Tormenta cruel rasgando a alma do céu

Empoeirando o chão salvo por Noé

A arca se foi, a era moderna chegou

A cifra verde em suas faces brilhou


Deuses e Santos lembrados

Para tentar cobrir seus anseios de perdão

Enganando seus lençóis desacreditados

Com sua hipócrita e mal decorada oração



A autoritária paranóia

contida nos frascos de suas veias manchadas

pelas nódoas de sua história

Feto indigesto aos olhos atemporais

Pérfido exterminador de animais


O homem e suas maiores tentações...


O que tirastes de lição das estúpidas batalhas?

As douradas e inúteis medalhas?

Em qual exército desfilamos nossos passos errantes?

Até quando participaremos de lentos desfiles soluçantes?


Onde estão as calmas noites de luxúria?

Os bons tempos onde saíamos calmos pelas ruas?

Uma rajada eclética de monstruosidades tocou os seios do inferno

e se alimentou com filhos eternos em suas diárias aventuras nuas


O homem e suas maiores tentações...


Abrigar nas praças mutilados fantoches humanos desprezados

Com as pernas enfermas em um corte púrpuro de morte

Dentes escassos

ferindo a dignidade da boca dos contemporâneos escravos

Proximidade do abismo

Louvemos nosso choro de cinismo

Somos corvos rodeando seus restos vivos


Lembram-se das fadas encantadas daquelas estórias de infância?

E os livros bordados de viajantes sonhos?

Capítulos em medievais lendas entrelaçadas

rasgadas pelas mágicas imaginações aladas

Para onde fugiram?

Quando voltarão?


O nascer é uma benção...

Lambuzado de leite materno

E o resto?

Um embriagado drink no inferno?


O homem e sua maior preocupação...


Encontrar a saída de seu próprio labirinto perverso...

Olhar para o espelho e sentir a brisa

trazendo a inquieta indagação do universo:

Como viverá monte de pele e ossos?

Escapará ileso de seus próprios destroços?

14 comentários:

Leonardo B. disse...

[é nesse labirinto que a borboleta em chamas deseja de novo o casulo, desapegar-se do fogo que a mão ateia: sem tardes demais, aos poucos é o próprio grão da terra que se desfaz]

Um imenso abraço, Evandro

Leonardo B.

Sil.. disse...

Evandro, quanto tempooooo rs.

Obrigada pelo carinho no meu blog, passei pra retribuir.
Pena que nem todos os blogs aparecem nas minhas atualizações, o fato de me perder as vezes nesse contato com as pessoas.
Enfins, belo texto. E haja hoje para tantas tentações do Homem.

Meu abraço!

Com Ou Sem Senso disse...

Olá!
Obrigado por se fazer conhecer - agora estou por aqui também - gostei muito do lugar.
Quando quiser comer queijo, apareça com uma garrafa de vinho (não sendo aquele para fazer sagu, o "Sangue de Boi", tudo entra).

Abraço, sucesso e saúde!
*Dúvida terrível: como me achou? (alguma indicação de um amigo de Sorocaba? - sorriso)

Vozes de Minha Alma disse...

Amigo, muito pertinente teu poema, que é um cântico de clamor.
Faço coro contigo nesse clamor, e deixo aqui minha idgnação contra a nação... que...

Em cada rio que seca
Em cada árvore arrancada
Em cada canto da serra
É a mata que agoniza

Em cada perfuração
No leito do mar sereno
Na mesa de um altar
Um corpo é oferenda

Quando o sol doer nas costas
Do homem sem direção
Quando se derem por conta
Da vida se lembrarão

Enquanto o tempo não vem
Nem chega o holocausto
A vida acaba aos poucos
Na areia do mar exausto

A terra, os campos, o céu
Sustém os sonhos febris
Delírios de um capital
Tornando alguém feliz

Enquanto o tempo não chega
Nem chega o fogo do sol
Solenemente aguardam
Concreto, cinza, e sheol*...

Abraços.

Fabiane Aline disse...

Olá, tudo bem? Gostaria de agradecer a sua visita no meu blog. Também estou te seguindo. Muito legal o conteúdo do seu blog. Parabéns. Beijos e aguardo a sua visita novamente.

Karla Thayse disse...

Belos escritos..

Encantada!

Uma semana iluminada!

Beijo

Roberto Borati disse...

meu caríssimo evandro,

muito obrigado pelas palavras elogiosas e muito bem colocadas, também agradeço a sua visita! se for 1/3 dessa turma que vocÊ citou eu serei um ser muito feliz e com missão cumprida! obrigado!


abraços

roberto.



ps. belo blog o seu!

Matheus Marins Alvares disse...

Obrigado pela visita e elogio, Evandro!
Seu espaço é muito legal. Gostei muito deste texto. Apocalíptico e cortante, sensível também. Ótimas as imagens que coloca ao longo do texto... tocante, viajante...
parabéns

Abraço!
Matheus

Mirache disse...

Quiero informarte que el blog de poemas de Mirache al cual seguías, ha cambiado de dirección a

http://blog-mirache.blogspot.com/

Si quieres seguirme nuevamente estás cordialmente invitado.

Saludos
Mirache

LiLa BoNi disse...

É muito bom estar aqui novamente te lendo!!!
Parabéns e mil beijos !!!!!!

Cezar Santos disse...

Que bela capacidade de emocionar que tem esse texto, forte e sincero, senti a emoção tomando conta por cada palavra lida q utilizou tão bem em um tema tão triste, obrigado por proporcionar essa linda e protestante poesia.

Poesias-Franciéle R.Machado disse...

Fiquei impressionada pelo modo como você consegue passar tudo isso, é uma coisa triste e da qual não é normal e nunca será pelo menos para mim, essa poesia está maravilhosa pois passou tanto que ao ler me emocionei, conseguiu tocar a mim quando a li,a li inteira e gostei de tudo que você falou, porque você falou das verdades e esse tipo de leitura me agrada muito.

Uma Boa Tarde, grande poeta!
Parabéns, e bastante sucesso!

Abraços!

Lara. disse...

Aqui estão palavras relacionadas com perfeição. O tipo de coisa que alimenta o espírito e atiça a lucidez. Parabéns.

Regina Laura disse...

Oi Evandro, vim retribuir sua visita tão gentil a meu blog.
E quase me perco nas linhas desse poema...
Um ritmo sufocante, tão real que a gente quase pode tocar.
Muito para se degustar por aqui.
Com a merecida calma.
Forte abraço ;)