sábado, 19 de junho de 2010

Lança libertina

Olha você...

defronte ao abissal espelho

Agoireira testemunha

fincando a lança libertina

vagando em erótico transe

observada pela verde retina

Morador do quarto azul

Andrajoso andarilho

calçando suas botas de couro

percorrendo portais

da insana imaginação

Artérias pulsam

o rubro e misérrimo

sangue da destruição

adentrando o labirinto

dos arrabaldes soturnos

nas frias calçadas

da amargura

Fogo na noite

A brisa sussurra

uma ditosa melodia às folhas

Lírios exalam

o odor doce pueril

no jardim da praça central

O mundo é uma faminta boca

gigante

mutante

itinerante

O mundo,

este eterno desejo de poder

formado por muros

grades

laços

e raças

forçando-nos a ser

como predadores

em busca de suas caças

comendo o povo

com igrejas,

pastores,

e a maldita televisão

Lavagem cerebral

Subam fiéis

pelas escadas do firmamento

alcancem o perdão

acariciando a reluzente constelação

Linda natureza

Perfeita realeza

Terrível surpresa!

Olha você...

desfilando a íntima fúria

Seus amigos...

Bêbados!

Marginais!

Anjos lavam

os doirados castiçais da capela

com suas tristes lágrimas

derramadas pela celestial janela

Demônios conduzem

seus fiéis forasteiros

ao palácio desgarrado

dos excessos

alimentados pela gula

das selvagens crueldades

percorrendo o deserto

tênue e incerto

à procura escura

das minas de ouro

Fonte de desejos

atravessam barreiras

gerando anseios

beijando a morte

no bico dos seios

Corpo do mendigo apodrecendo

Véu alvo da donzela ensangüentado

Lixo da burguesia assassinado

Passageiros da tempestade

depauperados seres

enriquecidos prazeres

Mentes amantes de genocídios

Loucos vermes

Fétidas orgias

Mórbidas apologias

Descansem nos braços afáveis

dos prostíbulos

Frio na manhã!

Olha você...

defronte ao abissal espelho

Bizarro ser envelhecido

vagando em caótico transe

pelas funéreas alamedas

do revertério

ornado pelo fulgor

do sol esmaecido

Olha você...

Olha você...

Olha você...

Você sou Eu!!!!