domingo, 23 de maio de 2010

Sombria furna

Ó inquieta loucura,
que me aprisiona em sombria e solitária furna,
acalma-te por instantes!

Tu que fazes brotar em minhas pupilas
uma cegueira atroz ante obcecadas faces abobadas,
desprendidas de senso crítico e de ridículo,
habitando esta sociedade depauperada

Tu que fazes brotar em meus tímpanos
uma sonoridade de anseios psicóticos
e tendências estridentes,
as quais forçam-me a ranger os dentes
como se um punhal afiado pelo asco à vulgaridade
tatuasse em mim um justiceiro a varrer
o lixo de carne e osso que imunda esta cidade

Uma fumaça sai de minha cabeça
poluindo este jardim de neurônios

Uma porção de espinhos germina
sangrando-me de dentro para fora,
fazendo-me gemer esta dor melancólica
que me consome em constante vigília
por minha própria perturbação

Os dias são migalhas e este brado interior que solto,
vai circulando e evacuando
pelos poros desta psíquica fatigada,
arrastando-se e coleando-se pelos pensamentos peculiares
que me comandam nesta interminável e austera batalha

Quero um sono pesado,
para curar-me das nódoas desta taquicardia enferma,
esquecer das moscas varejeiras
que sobrevoam minha cadeira
na esperança de pôr um ovo nocivo
que possa ser explosivo
na tentativa de podar-me de meu emprego medíocre

Não ouvir os ganidos da madrugada, as latas chutadas,
o ruído descompassado dos moribundos,
as sirenes anunciando um novo assassinado,
o vento alto interrompendo o silêncio velado

Não enxergar o retrato antigo
dos outrora queridos entes,
acumulando poeira e pegadas de baratas
em cima das estantes

Deixais um lençol de pano cálido
isolar minha mente doentia
da realidade fria que me deixa pálido

E que os sonhos puros
penetrem como corajosos e loucos
pela janela dos medos escuros
e vá me acalmando aos poucos