quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sou...mendigo

Desregramento
no âmago da chaga psíquica
Sombras soturnas
beijam os fartos seios
da cidade monstro

Oh! criaturas da noite
reverencio com júbilo
Rezo a oração da libertinagem
Amo
Odeio
Sou romântico e selvagem

Sou santo,
anjo
e demônio
Diariamente antagônico
Rezem meus irmãos
pela minha horrível beleza

Sou um brado
atormentado e insano
ecoando pelos longos caminhos
deste mundo profano
Sou árvore
com ramas entrelaçadas
em vogais e consoantes fecundadas
Linguajar popular
e enigmáticas algaravias

Ácidos discursos ecoam
pelos arbustos do cérebro
rasgando os inquietos quilômetros
de suas autovias

Sou flor de lis
e um jardim de espinhos
Rosto de anjo perambulando
em errantes caminhos

Eterno prelúdio
Incurável doente escravo
de meu próprio distúrbio

Sou um líquido venenoso
e cheiroso
Aprisionado em uma garrafa
de safra bizarra
Degustado em diversas taças
simbolizando todas as raças
Sou um cometa desenfreado
em constante atrito
Varrendo os asteróides viciados
deste universo infinito
Universo enleado de prioridades
horrivelmente cultuadas
Fragmentos de uma nação
culturalmente despovoada

Sou provocador...
Aos fracos,
desprezíveis criaturas da amargura
a pétrea constelação de medos
é o fulgor negro do luar
refletindo nos navios cimérios
atracados no bálsamo
dos portos da morte
invólucros por seus mistérios

Adeus fracos,
abreviem seu longo sofrimento
ao lacerar o peito
fincando a espada da covardia
Aos demônios,
vocês darão um pouco mais de alegria
Sou provocador...
Aos inimigos,
ansiosos em me superar,
a letal cicuta
do destino
é o lume ardente
no cálice dourado contido
adoecendo seus lábios
ornando suas mentes
com a escuridão
do desprezo jorrado

Sou provocador...
Aos fortes,
belos guerreiros da aventura,
as infindáveis e cruentas batalhas
travadas nas chuvosas e ensolaradas
manhãs do dia-a-dia
tendo como antologia
inefáveis risos
silentes prantos
amargos desencontros
doces encantos

Avante fortes,
aumentem seu legado
Aos seus olhos,
o mundo é um imenso quadro
com paisagens engalanadas
e as esperanças
sempre se renovam
a cada aurora fulgurante
e delicada

Sou pontos e setas
Pingos e acentos
Parágrafos e vírgulas
Curvas e retas
Mediocridade e talentos
Alegrias e lamentos

Sou amante da noite
Arranco seu véu de donzela
e a cortejo pela janela
Tento tocar em seus seios estrelados
escalando em meus sonhos
suas montanhas cósmicas
acariciando a misteriosa face da lua
envolvendo meu trêmulo corpo
em seus sensuais olhares
de deusa nua

Sou um grão de areia
neste oceano de medos e delírios
Às vezes esvaindo-me,
mas sempre ressurgindo

Quando a música terminar
e a luz do teatro da vida apagar,
imaculados magos sorridentes
me levarão aos medievais castelos
da imortalidade

Basta de medos
Procuro por um seguro abrigo
Oh! grande criador de nós todos,
conduza-me ao desconhecido
Dele quero tocar as mãos
e ser seu mais leal amigo

Por favor,
sacie a fome e a sede
deste perturbado mendigo!

11 comentários:

Eliane F.C.Lima disse...

Evandro,
Sua poesia me lembra muito a de Augusto dos Anjos, poeta que já está esperando na minha fila de postagens. É a mesma visão de si e do mundo. Os mesmos apelos poéticos. Sempre admirei a ele e agora conheço você. Que bom! Em minhas aulas de literatura, ao apresentar aquele poeta a meus alunos adolescentes via a admiração deles. Um frêmito percorria a sala. Adolescentes gostam dele e acho que é justamente por essa inversão, digamos assim, da linguagem poética. Ele chega ao belo justamente perseguindo o caminho oposto.
Agradeço a visita que me fez e a oportunidade de vir aqui, o que farei sempre.
Um grande abraço,
Eliane F.C.Lima (http://literaturaemvida2.blogspot.com; http://conto-gotas.blogspot.com)

Úrsula Avner disse...

Olá caro poeta,

seu texto traz uma temática rica, pois engloba a complexidade humana em bonitos versos poéticos. Obrigada por sua visita e comentário gentil. Um abraço.

. disse...

olá ... fiquei feliz com sua visita .... identifiquei muito com alguns trechos de sua poesia .... vou seguir o Lunático

ROGEL SAMUEL disse...

seu poema forte
bom para a declamação
poesia em voz alta
muito bom texto

Arthur Dantas disse...

Sou romântico e selvagem

Sou santo,
anjo
e demônio
Diariamente antagônico
Rezem meus irmãos
pela minha horrível beleza.


me senti me olhando em um espelho...
até agora vc foi quem mais conseguiu me definir, mesmo sem querer fazê-lo.

Carlota Vasconcelos disse...

Entre poetas, empatia ontológica. Entre a carne e a alma, somos o melhor elo. Reverencio suas palavras e venho igualmente agradecer sua visita ao meu "Daqui Mesmo". Gostaria de convidá-lo a se tornar seguidor de meus dois blogs, posto que me prontifico a seguí-lo...lunaticamente. rsr Sucesso em seu caminho! Abraços fraternos de uma poeta de mil portos metafísicos.

Adriana Godoy disse...

Uma autobiografia poética maravilhosa. Gostei bastante. Beijo.

Mariana Tatos disse...

Uma ebulição passa por aqui
a ponto de explodir,
de versos e prosas dilaceradas
entre pulsação e contração,
um corpo descobriu que não há unidade
pois ele foi feito de várias, despedaços
espalhados em busca de vivacidade
Um brinde a eloquência da diversidade!!

gostei daqui
bjkitas
Mari

Pedro Du Bois disse...

Caro Poeta, visitei, gostei. Sua temática é forte e diversificada: emoldurada em cadência e ritmo. Parabéns. Abraços, Pedro.

Antonio Campos disse...

Perfeito e quantos de nós indentificam-se com essa poesia forte. Saliento essa estrófe.


"Quando a música terminar
e a luz do teatro da vida apagar,
imaculados magos sorridentes
me levarão aos medievais castelos
da imortalidade"

Grato por sua visita passei a seguidor desse espaço.

Angélica Lins disse...

BRAVÍSSIMO!

Parabéns pelo blog


Abraço