sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O renegado

Vagando trôpego por nebulosos caminhos
Driblando lixos inorgânicos e fétidos
Tua pele cortada pelo vento em negros moinhos
Destino estrelado em luares pérfidos

Fronte enrugada em tristeza delineada
O escárnio diário massageando teus ouvidos
Velejaste sozinho em urbanas ondas desgovernadas
Ancorando em becos ornados de maltrapilhos espavoridos

A parceira fome urrando nua e crua
Tal qual uma fera angustiada no cio
Guiando-te em desmaios por entre avenidas e ruas
Esculpindo nódoas eternas em teu coração doentio

Espectro humano em lamúrias acorrentado
Alquebrado sem anúncio alvissareiro
Sem casa, sem dinheiro, sem nenhum legado
De propriedade apenas o papelão em forma de travesseiro

Errante itinerante em tua saga sem alento
Arrulhando dignidade em teu lento desfilar
Clamando altruísmo dos jovens de passos desatentos
Açoitando os olhos com teu constante chorar

Em um rústico breviário segue teu calvário colhendo lúgubres quireras
Renegado moribundo com tuas mãos calejadas e pernas feridas
Ainda sonhando em uma quase impossível e auspiciosa quimera
De ser aceito neste país com tantas almas alienadas e perdidas

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Odor da memória...

É infindo e harmonioso o canto da caserna

A despertar vívidos girassóis em seus vergéis

Lá de cima, o sol regando a relva com sua luzerna

Nas prateadas paredes, os uniformes verdes vestem os tropéis


Sonhador soldado de coração armado

Desbravando terras em púrpuras batalhas

Segue adiante e no errante caminho adornado

Dos jovens ossos repousando no leito das migalhas


E de um antagônico brado foi anunciado o aleivoso destino

Mostrou-se em sua fronte o pranto puro de um menino

Mãos adormecidas sobre o peito estilhaçado

O corpo ensangüentado banhado em lírios

Odor da história despedaçando a memória de seus delírios

Filho da guerra, viraste semente da terra, em seu branco jazigo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sou...mendigo

Desregramento
no âmago da chaga psíquica
Sombras soturnas
beijam os fartos seios
da cidade monstro

Oh! criaturas da noite
reverencio com júbilo
Rezo a oração da libertinagem
Amo
Odeio
Sou romântico e selvagem

Sou santo,
anjo
e demônio
Diariamente antagônico
Rezem meus irmãos
pela minha horrível beleza

Sou um brado
atormentado e insano
ecoando pelos longos caminhos
deste mundo profano
Sou árvore
com ramas entrelaçadas
em vogais e consoantes fecundadas
Linguajar popular
e enigmáticas algaravias

Ácidos discursos ecoam
pelos arbustos do cérebro
rasgando os inquietos quilômetros
de suas autovias

Sou flor de lis
e um jardim de espinhos
Rosto de anjo perambulando
em errantes caminhos

Eterno prelúdio
Incurável doente escravo
de meu próprio distúrbio

Sou um líquido venenoso
e cheiroso
Aprisionado em uma garrafa
de safra bizarra
Degustado em diversas taças
simbolizando todas as raças
Sou um cometa desenfreado
em constante atrito
Varrendo os asteróides viciados
deste universo infinito
Universo enleado de prioridades
horrivelmente cultuadas
Fragmentos de uma nação
culturalmente despovoada

Sou provocador...
Aos fracos,
desprezíveis criaturas da amargura
a pétrea constelação de medos
é o fulgor negro do luar
refletindo nos navios cimérios
atracados no bálsamo
dos portos da morte
invólucros por seus mistérios

Adeus fracos,
abreviem seu longo sofrimento
ao lacerar o peito
fincando a espada da covardia
Aos demônios,
vocês darão um pouco mais de alegria
Sou provocador...
Aos inimigos,
ansiosos em me superar,
a letal cicuta
do destino
é o lume ardente
no cálice dourado contido
adoecendo seus lábios
ornando suas mentes
com a escuridão
do desprezo jorrado

Sou provocador...
Aos fortes,
belos guerreiros da aventura,
as infindáveis e cruentas batalhas
travadas nas chuvosas e ensolaradas
manhãs do dia-a-dia
tendo como antologia
inefáveis risos
silentes prantos
amargos desencontros
doces encantos

Avante fortes,
aumentem seu legado
Aos seus olhos,
o mundo é um imenso quadro
com paisagens engalanadas
e as esperanças
sempre se renovam
a cada aurora fulgurante
e delicada

Sou pontos e setas
Pingos e acentos
Parágrafos e vírgulas
Curvas e retas
Mediocridade e talentos
Alegrias e lamentos

Sou amante da noite
Arranco seu véu de donzela
e a cortejo pela janela
Tento tocar em seus seios estrelados
escalando em meus sonhos
suas montanhas cósmicas
acariciando a misteriosa face da lua
envolvendo meu trêmulo corpo
em seus sensuais olhares
de deusa nua

Sou um grão de areia
neste oceano de medos e delírios
Às vezes esvaindo-me,
mas sempre ressurgindo

Quando a música terminar
e a luz do teatro da vida apagar,
imaculados magos sorridentes
me levarão aos medievais castelos
da imortalidade

Basta de medos
Procuro por um seguro abrigo
Oh! grande criador de nós todos,
conduza-me ao desconhecido
Dele quero tocar as mãos
e ser seu mais leal amigo

Por favor,
sacie a fome e a sede
deste perturbado mendigo!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Lunático

Parte o lunático...

Vestido pela íntima solidão
Duelando com as sombras do passado
Ruas são labirintos de fogo
aquecidas por cobertores de ossos
Árvores são testemunhas
e suas folhas espiãs
brincando entre os galhos da madrugada

Morcegos voam
entre rasantes tentativas de alegria
Cães ladram
a fome angustiada dos mal-nascidos
Gatos esquartejados nas autovias
e seus cérebros pisoteados
pelos carros rumo ao sul

Parte o lunático...

O riso mórbido como guia
Abre-se uma fenda na abóbada
Raios selvagens estupram
as estrelas donzelas
e elas derramam pelas nuvens
lágrimas vermelhas
Como o gozo de um vinho barato
sobre o solo poeirento da cidade

Parte o lunático...

Em sua hipnótica caravela
Velejando pelos prolíferos mares da loucura
A lua a beijá-lo
Uma tempestade de anseios
derramada em pernas e seios
entrelaçando as veias pulsantes dos desejos
Filho do deleite
Em uma colheita
de douradas novidades
Caminhando pelos campos antes inóspitos
A música refletindo
o erótico flerte
da vida com a morte

Espasmo

Açoite

Finda mais uma luxuriosa noite
ao ser atravessada
pela espada flamante
do divino crepúsculo
E o lunático retorna...

ao seu frio reino de tijolos à vista
Pedindo em seus credos de arremedo
para a alma uma benção
e para o corpo um esteio
quando a amante embriaguez se foi
e a esposa ressaca veio!