domingo, 26 de dezembro de 2010

Pião



Quatro e meia da madrugada!

Ruas silenciosas à espera da alvorada

Esquinas abrigando cães e gatos

Calçadas poupadas da marcha dos sapatos

A cidade se esconde nos cobertores

Embaixo dos travesseiros repousa seus temores


Mas já são quatro e meia da madrugada...


Acorda prisioneiro do tempo

Sacode a poeira do sono profundo

Veste a calça desbotada,

a camisa suada,

a bota rasgada,

sai com a esperança renovada

e corre aos braços do teatral passatempo

Assegura sua entrada no espetáculo

Com um mero cartão

levas um número no peito

como o gado branco marcado pelo peão


Bem vindo ao tórrido galpão da sobrevivência

Monstro de energia

Escravo doutrinado

em sua cruzada pela decência

Cordeiro conformado com sua letargia

Ao seu redor,

máquinas torneando a diária obsessão

fresando aos poucos

os outrora resistentes metais

de seu cansado coração


Nos corredores,

a voz das pessoas é um artigo de luxo

para sepultar a solidão


Mas você não está abandonado...


Pela dolorosa luz

das grandes lâmpadas é iluminado

Suor amargo ao chão jorrado

Graxa bronzeando a pele esmaecida

Tímpanos beijados pelas ruidosas engrenagens

Belíssimo robô humano

Aos ventos modernos e selvagens

és o curinga sublime deste jogo tirano

Dezessete horas!


Vai operário,

entra no ônibus azul

avista as mesmas paisagens

repousa o tronco cansado

no mesmo banco quebrado

ouve as mesmas conversas idiotas

fecha os olhos e faz uma oração

Pede uma anestesia geral para a mente

Abandona o universo paupérrimo do vizinho

Mantém a chama do inconformismo

cicatrizando a chaga do comodismo


Vinte horas!


O mundo é um relógio sem compaixão

A noite surge

expulsando o dia para o Japão

Está na hora das lamúrias

por instantes abandonar

e aos sonhos coloridos

a alma poder entregar


Pois logo,

o velho despertador

com seu pisca-pisca melódico

lembrará sua dor

Às quatro e meia da madrugada...

domingo, 3 de outubro de 2010

Oração aos arrependidos...

Fragor erótico da noite

Brisa enregelada

despertando lépidos leões

rugindo às nobres nuvens mensageiras

Taciturnas serpentes

abrindo as portas do delírio

com os viciados dados

do jogo da loucura

Adentra

pela senda dos porões

da amargura

Exposta pelos fátuos devaneios

“A caravana dos sátiros”

Inquietos habitantes

Luxuosos

Solitários

Olhos estranhos

gázeos e castanhos

Cães farejam

o espólio negro

dos ideais perdidos

e escondidos

no labirinto árido e descrente

de nossas mentes

navegando

pelos rios hipnóticos

da auto destruição

Donzela iridescente

Benevolente

Imaculada

Alma abortada

pela oração carnal

do fétido pastor

Desperta Sol...

Arcanjo sagrado

Cingido

pelos raios infantes

da abóbada flamejante

Acende as luzes do dia

Solo fértil do viver irradia

Beija a seiva doce do girassol

Engendra a regozijante

melodia do rouxinol

Movimenta os peões humanos

neste tabuleiro surreal

gerando a maviosa

alquimia do amor

Com o estilhaço fulvo

de seus pedaços

afasta o desditoso

cálice da dor

fantasiando com júbilo

as infindáveis avenidas

de nossos encalços...

sábado, 4 de setembro de 2010

O homem e suas maiores tentações...

O homem e suas maiores tentações...


Ordenar e destruir...

Alterar o ciclo da criação...

Jogar o caos e com sangue diluir


Modernizar a todo custo

Postular a eternidade sendo esculpido em um medíocre busto

Verter sua insanidade peculiar

Açoitar a terra, a água e o ar


Deleitar-se de seu vil opúsculo

Planejar mórbidas obsessões a cada crepúsculo

Sugar as criaturas infantes aos seus poluídos rios

e contaminá-las pelas fezes de seus desvarios


Aonde chegaremos?

O que nos restou desta festa secular?

Qual de nossas gerações habitará um respirável lar?


Um ilusório teatro nos consome

Marionetes circenses sustentadas pela fome

Falsos profetas celebrando cultos de arremedo

Tênues almas em forma de brinquedo


Santa devastação

Regendo a sinfônica orquestra da putrefação


A cidade esconde lacunas sombrias

Espectros de fogo afagam nosso cruel pesadelo

Nos tabuleiros de asfalto rolam os dados

Clamam as seis faces o fim dos destinos viciados


O homem e suas maiores tentações...


Criar seu próprio reino imaginário...

Trono fincado em um barraco sanguinário

Seita urbana doutrinada pela benção da carnificina

Reis coroados em luxuosas grades regadas à cocaína

Crianças de outrora hoje são adultos sem glória


Florestas devastadas

Tormenta cruel rasgando a alma do céu

Empoeirando o chão salvo por Noé

A arca se foi, a era moderna chegou

A cifra verde em suas faces brilhou


Deuses e Santos lembrados

Para tentar cobrir seus anseios de perdão

Enganando seus lençóis desacreditados

Com sua hipócrita e mal decorada oração



A autoritária paranóia

contida nos frascos de suas veias manchadas

pelas nódoas de sua história

Feto indigesto aos olhos atemporais

Pérfido exterminador de animais


O homem e suas maiores tentações...


O que tirastes de lição das estúpidas batalhas?

As douradas e inúteis medalhas?

Em qual exército desfilamos nossos passos errantes?

Até quando participaremos de lentos desfiles soluçantes?


Onde estão as calmas noites de luxúria?

Os bons tempos onde saíamos calmos pelas ruas?

Uma rajada eclética de monstruosidades tocou os seios do inferno

e se alimentou com filhos eternos em suas diárias aventuras nuas


O homem e suas maiores tentações...


Abrigar nas praças mutilados fantoches humanos desprezados

Com as pernas enfermas em um corte púrpuro de morte

Dentes escassos

ferindo a dignidade da boca dos contemporâneos escravos

Proximidade do abismo

Louvemos nosso choro de cinismo

Somos corvos rodeando seus restos vivos


Lembram-se das fadas encantadas daquelas estórias de infância?

E os livros bordados de viajantes sonhos?

Capítulos em medievais lendas entrelaçadas

rasgadas pelas mágicas imaginações aladas

Para onde fugiram?

Quando voltarão?


O nascer é uma benção...

Lambuzado de leite materno

E o resto?

Um embriagado drink no inferno?


O homem e sua maior preocupação...


Encontrar a saída de seu próprio labirinto perverso...

Olhar para o espelho e sentir a brisa

trazendo a inquieta indagação do universo:

Como viverá monte de pele e ossos?

Escapará ileso de seus próprios destroços?

sábado, 19 de junho de 2010

Lança libertina

Olha você...

defronte ao abissal espelho

Agoireira testemunha

fincando a lança libertina

vagando em erótico transe

observada pela verde retina

Morador do quarto azul

Andrajoso andarilho

calçando suas botas de couro

percorrendo portais

da insana imaginação

Artérias pulsam

o rubro e misérrimo

sangue da destruição

adentrando o labirinto

dos arrabaldes soturnos

nas frias calçadas

da amargura

Fogo na noite

A brisa sussurra

uma ditosa melodia às folhas

Lírios exalam

o odor doce pueril

no jardim da praça central

O mundo é uma faminta boca

gigante

mutante

itinerante

O mundo,

este eterno desejo de poder

formado por muros

grades

laços

e raças

forçando-nos a ser

como predadores

em busca de suas caças

comendo o povo

com igrejas,

pastores,

e a maldita televisão

Lavagem cerebral

Subam fiéis

pelas escadas do firmamento

alcancem o perdão

acariciando a reluzente constelação

Linda natureza

Perfeita realeza

Terrível surpresa!

Olha você...

desfilando a íntima fúria

Seus amigos...

Bêbados!

Marginais!

Anjos lavam

os doirados castiçais da capela

com suas tristes lágrimas

derramadas pela celestial janela

Demônios conduzem

seus fiéis forasteiros

ao palácio desgarrado

dos excessos

alimentados pela gula

das selvagens crueldades

percorrendo o deserto

tênue e incerto

à procura escura

das minas de ouro

Fonte de desejos

atravessam barreiras

gerando anseios

beijando a morte

no bico dos seios

Corpo do mendigo apodrecendo

Véu alvo da donzela ensangüentado

Lixo da burguesia assassinado

Passageiros da tempestade

depauperados seres

enriquecidos prazeres

Mentes amantes de genocídios

Loucos vermes

Fétidas orgias

Mórbidas apologias

Descansem nos braços afáveis

dos prostíbulos

Frio na manhã!

Olha você...

defronte ao abissal espelho

Bizarro ser envelhecido

vagando em caótico transe

pelas funéreas alamedas

do revertério

ornado pelo fulgor

do sol esmaecido

Olha você...

Olha você...

Olha você...

Você sou Eu!!!!

domingo, 23 de maio de 2010

Sombria furna

Ó inquieta loucura,
que me aprisiona em sombria e solitária furna,
acalma-te por instantes!

Tu que fazes brotar em minhas pupilas
uma cegueira atroz ante obcecadas faces abobadas,
desprendidas de senso crítico e de ridículo,
habitando esta sociedade depauperada

Tu que fazes brotar em meus tímpanos
uma sonoridade de anseios psicóticos
e tendências estridentes,
as quais forçam-me a ranger os dentes
como se um punhal afiado pelo asco à vulgaridade
tatuasse em mim um justiceiro a varrer
o lixo de carne e osso que imunda esta cidade

Uma fumaça sai de minha cabeça
poluindo este jardim de neurônios

Uma porção de espinhos germina
sangrando-me de dentro para fora,
fazendo-me gemer esta dor melancólica
que me consome em constante vigília
por minha própria perturbação

Os dias são migalhas e este brado interior que solto,
vai circulando e evacuando
pelos poros desta psíquica fatigada,
arrastando-se e coleando-se pelos pensamentos peculiares
que me comandam nesta interminável e austera batalha

Quero um sono pesado,
para curar-me das nódoas desta taquicardia enferma,
esquecer das moscas varejeiras
que sobrevoam minha cadeira
na esperança de pôr um ovo nocivo
que possa ser explosivo
na tentativa de podar-me de meu emprego medíocre

Não ouvir os ganidos da madrugada, as latas chutadas,
o ruído descompassado dos moribundos,
as sirenes anunciando um novo assassinado,
o vento alto interrompendo o silêncio velado

Não enxergar o retrato antigo
dos outrora queridos entes,
acumulando poeira e pegadas de baratas
em cima das estantes

Deixais um lençol de pano cálido
isolar minha mente doentia
da realidade fria que me deixa pálido

E que os sonhos puros
penetrem como corajosos e loucos
pela janela dos medos escuros
e vá me acalmando aos poucos

sábado, 3 de abril de 2010

Até quando...

Floresta urbana
Efemérides insanas
Estilhaços enluarados
Espólios ensolarados
Languidescência cobrindo o nirvana

Fragor da brisa epilética
Solitários ganidos
Esfomeados vagidos

Arrabaldes soturnos
engendram lúcifers contemporâneos
Despertando reis adormecidos
em asfixiados sonhos esmaecidos

Juventude e inquietude
Atrativas latitudes

Jaquetas de couro
Olhares rubros e hipnotizados
Coleando e sibilando perigo
em busca de ouro

Pirilampos motorizados
Piscando a morte
em rasantes embriagados

Espécimes regozijantes
e malévolas
Rostos angelicais
descartando auréolas

Terra rasgada
Abrigando em seu ventre
Sussurros feridos
de sobrevivência enevoada

Pais espavoridos
entregam-se à fé acesa
disfarçada de vela
sobre a mesa

Filhos raivosos
dissipando vertentes delinquentes

Rompendo cada barreira vil
libertinos discípulos
do desregrado cio

Celebrando esta farta ágape em júbilo
brindada por baganas, garrafas
e o microponto amarelo

Selando as regras do jogo
disputado nos tabuleiros
de seus cerebelos

Regressam agora,
ao cabo desta confluência ceitil
arrastando pesados arrependimentos

observando a flamejante
abóbada anil
que germinada pela Lua
e pelo Sol

atesta em um único pranto duradouro
que seu belo cosmos outrora vindouro
hoje é um transcedental
e eclético matadouro

Até quando?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Rosas e lírios

Rosas e lírios presentes
Ao redor desta tumba velada
Ornando as orações de seus entes
Vertendo prantos nesta noite enregelada

Um pranto insistente e arrulhado
Retratando tristeza em suas frontes
Relembrando vívidos sonhos do passado
Jorrando límpidos como água das fontes

Passos suaves são dados a esmo
Tentando para este momento, vãs explicações plausíveis
Estudando ao lado, as mais diversas reações sensíveis
Chegando à conclusão, que não adianta mesmo

E neste passo trevoso e perturbador
A morte arranca nossa lucidez
Indigesta e egoísta, não liga para nossa dor
Rindo de nossa tênue palidez

Mesmo assim, o pranto é por mim solto devagar
Entregando-te ao teu riso, ó negra senhora
E o amigo que pede para eu ir embora
Inerte, segura as lágrimas por vergonha de se entregar

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O renegado

Vagando trôpego por nebulosos caminhos
Driblando lixos inorgânicos e fétidos
Tua pele cortada pelo vento em negros moinhos
Destino estrelado em luares pérfidos

Fronte enrugada em tristeza delineada
O escárnio diário massageando teus ouvidos
Velejaste sozinho em urbanas ondas desgovernadas
Ancorando em becos ornados de maltrapilhos espavoridos

A parceira fome urrando nua e crua
Tal qual uma fera angustiada no cio
Guiando-te em desmaios por entre avenidas e ruas
Esculpindo nódoas eternas em teu coração doentio

Espectro humano em lamúrias acorrentado
Alquebrado sem anúncio alvissareiro
Sem casa, sem dinheiro, sem nenhum legado
De propriedade apenas o papelão em forma de travesseiro

Errante itinerante em tua saga sem alento
Arrulhando dignidade em teu lento desfilar
Clamando altruísmo dos jovens de passos desatentos
Açoitando os olhos com teu constante chorar

Em um rústico breviário segue teu calvário colhendo lúgubres quireras
Renegado moribundo com tuas mãos calejadas e pernas feridas
Ainda sonhando em uma quase impossível e auspiciosa quimera
De ser aceito neste país com tantas almas alienadas e perdidas

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Odor da memória...

É infindo e harmonioso o canto da caserna

A despertar vívidos girassóis em seus vergéis

Lá de cima, o sol regando a relva com sua luzerna

Nas prateadas paredes, os uniformes verdes vestem os tropéis


Sonhador soldado de coração armado

Desbravando terras em púrpuras batalhas

Segue adiante e no errante caminho adornado

Dos jovens ossos repousando no leito das migalhas


E de um antagônico brado foi anunciado o aleivoso destino

Mostrou-se em sua fronte o pranto puro de um menino

Mãos adormecidas sobre o peito estilhaçado

O corpo ensangüentado banhado em lírios

Odor da história despedaçando a memória de seus delírios

Filho da guerra, viraste semente da terra, em seu branco jazigo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sou...mendigo

Desregramento
no âmago da chaga psíquica
Sombras soturnas
beijam os fartos seios
da cidade monstro

Oh! criaturas da noite
reverencio com júbilo
Rezo a oração da libertinagem
Amo
Odeio
Sou romântico e selvagem

Sou santo,
anjo
e demônio
Diariamente antagônico
Rezem meus irmãos
pela minha horrível beleza

Sou um brado
atormentado e insano
ecoando pelos longos caminhos
deste mundo profano
Sou árvore
com ramas entrelaçadas
em vogais e consoantes fecundadas
Linguajar popular
e enigmáticas algaravias

Ácidos discursos ecoam
pelos arbustos do cérebro
rasgando os inquietos quilômetros
de suas autovias

Sou flor de lis
e um jardim de espinhos
Rosto de anjo perambulando
em errantes caminhos

Eterno prelúdio
Incurável doente escravo
de meu próprio distúrbio

Sou um líquido venenoso
e cheiroso
Aprisionado em uma garrafa
de safra bizarra
Degustado em diversas taças
simbolizando todas as raças
Sou um cometa desenfreado
em constante atrito
Varrendo os asteróides viciados
deste universo infinito
Universo enleado de prioridades
horrivelmente cultuadas
Fragmentos de uma nação
culturalmente despovoada

Sou provocador...
Aos fracos,
desprezíveis criaturas da amargura
a pétrea constelação de medos
é o fulgor negro do luar
refletindo nos navios cimérios
atracados no bálsamo
dos portos da morte
invólucros por seus mistérios

Adeus fracos,
abreviem seu longo sofrimento
ao lacerar o peito
fincando a espada da covardia
Aos demônios,
vocês darão um pouco mais de alegria
Sou provocador...
Aos inimigos,
ansiosos em me superar,
a letal cicuta
do destino
é o lume ardente
no cálice dourado contido
adoecendo seus lábios
ornando suas mentes
com a escuridão
do desprezo jorrado

Sou provocador...
Aos fortes,
belos guerreiros da aventura,
as infindáveis e cruentas batalhas
travadas nas chuvosas e ensolaradas
manhãs do dia-a-dia
tendo como antologia
inefáveis risos
silentes prantos
amargos desencontros
doces encantos

Avante fortes,
aumentem seu legado
Aos seus olhos,
o mundo é um imenso quadro
com paisagens engalanadas
e as esperanças
sempre se renovam
a cada aurora fulgurante
e delicada

Sou pontos e setas
Pingos e acentos
Parágrafos e vírgulas
Curvas e retas
Mediocridade e talentos
Alegrias e lamentos

Sou amante da noite
Arranco seu véu de donzela
e a cortejo pela janela
Tento tocar em seus seios estrelados
escalando em meus sonhos
suas montanhas cósmicas
acariciando a misteriosa face da lua
envolvendo meu trêmulo corpo
em seus sensuais olhares
de deusa nua

Sou um grão de areia
neste oceano de medos e delírios
Às vezes esvaindo-me,
mas sempre ressurgindo

Quando a música terminar
e a luz do teatro da vida apagar,
imaculados magos sorridentes
me levarão aos medievais castelos
da imortalidade

Basta de medos
Procuro por um seguro abrigo
Oh! grande criador de nós todos,
conduza-me ao desconhecido
Dele quero tocar as mãos
e ser seu mais leal amigo

Por favor,
sacie a fome e a sede
deste perturbado mendigo!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Lunático

Parte o lunático...

Vestido pela íntima solidão
Duelando com as sombras do passado
Ruas são labirintos de fogo
aquecidas por cobertores de ossos
Árvores são testemunhas
e suas folhas espiãs
brincando entre os galhos da madrugada

Morcegos voam
entre rasantes tentativas de alegria
Cães ladram
a fome angustiada dos mal-nascidos
Gatos esquartejados nas autovias
e seus cérebros pisoteados
pelos carros rumo ao sul

Parte o lunático...

O riso mórbido como guia
Abre-se uma fenda na abóbada
Raios selvagens estupram
as estrelas donzelas
e elas derramam pelas nuvens
lágrimas vermelhas
Como o gozo de um vinho barato
sobre o solo poeirento da cidade

Parte o lunático...

Em sua hipnótica caravela
Velejando pelos prolíferos mares da loucura
A lua a beijá-lo
Uma tempestade de anseios
derramada em pernas e seios
entrelaçando as veias pulsantes dos desejos
Filho do deleite
Em uma colheita
de douradas novidades
Caminhando pelos campos antes inóspitos
A música refletindo
o erótico flerte
da vida com a morte

Espasmo

Açoite

Finda mais uma luxuriosa noite
ao ser atravessada
pela espada flamante
do divino crepúsculo
E o lunático retorna...

ao seu frio reino de tijolos à vista
Pedindo em seus credos de arremedo
para a alma uma benção
e para o corpo um esteio
quando a amante embriaguez se foi
e a esposa ressaca veio!